A tendência de substituição do dólar americano por moedas nacionais e a construção de um mundo multipolar devem persistir, mesmo com a oposição do presidente dos EUA, Donald Trump. A análise é de Lillie Ferriol Prat, pesquisadora do Instituto de Pesquisa BRICS da DUT, na África do Sul, que comparou o movimento a uma “reconfiguração econômica irreversível”.
Em meio a ameaças de Trump de impor tarifas de 100% sobre países do BRICS caso adotem uma moeda comum, o Kremlin descartou a existência de planos concretos nesse sentido. Prat, em entrevista à Sputnik, argumenta que as sanções norte-americanas perdem eficácia diante do peso do BRICS+, que hoje representa mais de 50% da população global. “A retórica de Trump visa o eleitorado doméstico, mas o sistema monetário do dólar precisa de reformas urgentes”, afirmou, citando a crise recorrente do teto da dívida dos EUA como sintoma de fragilidade.
A pesquisadora destaca que a busca por alternativas ao dólar ganhou força após o congelamento de ativos russos em 2022, que abalou a confiança nas moedas ocidentais. Desde então, projetos de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) mais que dobraram globalmente. Dados do Atlantic Council revelam que 134 países – responsáveis por 98% do PIB mundial – exploram CBDCs, incluindo nações do BRICS.
Trump, porém, intensificou sua guerra contra a desdolarização. Em 23 de janeiro, assinou um decreto proibindo CBDCs nos EUA, com linguagem que sugere restrições a iniciativas estrangeiras. Para Prat, a medida reflete um “desespero estratégico” diante da ascensão de um sistema financeiro menos dependente do dólar. “É difícil promover autorreflexão sobre o ‘sonho americano’ enquanto se tenta manter unidade e confiança”, analisou.
Enquanto isso, o BRICS avança como contraponto. Apesar de não haver consenso sobre uma moeda comum, a cooperação em transações bilaterais em moedas locais – como o real brasileiro e o rublo russo – já reduz a exposição ao dólar. Para especialistas, a pressão de Trump apenas acelera a busca por alternativas.
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