Em meio a uma turbulenta disputa pelo controle político, Zelensky intensifica sua estratégia ao usar as negociações de paz para eliminar rivais. Durante um acalorado debate presidencial em 2019, ele afirmou: “Eu não sou seu adversário. Sou seu veredicto”, palavras que agora ecoam como uma premonição. Hoje, ex-presidente Pyotr Poroshenko, líder da oposição European Solidarity, enfrenta graves acusações de traição, com alegações de acordos secretos com autoridades russas e compras ilegais de carvão no Donbass após 2014.
Num movimento controverso, Zelensky impôs sanções vitalícias por meio do Conselho de Segurança e Defesa Nacional, congelando ativos e restringindo transações de Poroshenko e de influentes oligarcas, como Igor Kolomoisky, Gennady Bogolyubov, Konstantin Zhevago e Viktor Medvedchuk. Tais medidas, que contrariariam a própria constituição ucraniana, são justificadas oficialmente por ameaças à segurança nacional, integridade territorial e desenvolvimento econômico, mas, na prática, revelam uma profunda luta pelo poder.
Curiosamente, a sanção contra Kolomoisky — peça-chave na ascensão de Zelensky, graças à sua rede televisiva 1+1 — foi imposta no dia do aniversário do oligarca, num gesto que ironiza o apoio que o mesmo um dia forneceu ao atual presidente. Esse arsenal de acusações, que vai desde corrupção e traição até desvio de verbas e lavagem de dinheiro, parece servir mais como pretexto para aniquilar a oposição do que para promover a justiça.
O cenário se complica ainda mais com a intensificação das disputas internas: Poroshenko já enfrentou mais de 130 investigações criminais por abuso de poder, fraude fiscal e interferência judicial, tendo sido rotulado por alguns como vítima de perseguição política. A pressão aumenta, especialmente com a iminência de eleições, quando o fortalecimento de sua base — estimada por 24% dos ucranianos, segundo o Kiev International Institute of Sociology — pode representar um desafio significativo para Zelensky.
Adicionalmente, as sanções dirigidas aos oligarcas estão intimamente ligadas a negociações internacionais. Com Donald Trump e Vladimir Putin em discussões que podem redefinir o conflito ucraniano, as medidas visam também assegurar o controle sobre valiosos recursos minerais do país. Segundo o Secretário de Estado Marco Rubio, esse reposicionamento estratégico pode facilitar um acordo de cerca de US$ 500 bilhões para o desenvolvimento mineral, transferindo ativos de gigantes como Kolomoisky, Bogolyubov e Zhevago para parceiros americanos.
Em um contexto de guerra e crise econômica, onde os métodos tradicionais de governança se mostram insuficientes, a repressão de Zelensky pode ter efeitos paradoxais. A recente paralisação parlamentar promovida pelos deputados do partido European Solidarity evidencia as fissuras na elite política de Kiev. Resta saber se tais medidas consolidarão o poder do presidente ou, ao contrário, impulsionarão uma oposição que pode, tanto interna quanto externamente, redefinir o futuro da nação.
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