Em meio a um cenário devastador, o mundo reage ao marco sombrio de mais de 40 mil palestinos mortos em Gaza, entre eles 16.456 crianças, vítimas de quase 11 meses de uma ofensiva israelense implacável. A informação foi confirmada pelo Ministério da Saúde de Gaza na quinta-feira, enquanto negociações para um cessar-fogo emergencial aconteciam em Doha, no Catar.
A ofensiva, que também deixou mais de 11 mil mulheres mortas, devastou a Faixa de Gaza, com dois terços das construções danificadas ou destruídas, segundo a ONU. A esse número trágico somam-se cerca de 10 mil palestinos desaparecidos, muitos dos quais acredita-se estarem soterrados sob os escombros que marcam a paisagem desolada da região.
Aseel Matar, uma mulher palestina que vive em Gaza, expressou sua dor ao canal Al Jazeera: "O que significam 40 mil? É um número catastrófico que o mundo não pode sequer imaginar. Apesar disso, o mundo vê, está ciente, ouve e nos assiste todos os dias, a cada minuto, mas permanece em silêncio, e nós estamos impotentes. Estamos exaustos, não temos mais energia."
Logo após o anúncio do Ministério da Saúde, tiveram início novas conversas de cessar-fogo na capital do Catar, mediadas por Qatar, Egito e Estados Unidos, com a presença de altos representantes de Israel.
Volker Turk, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, descreveu a situação como um marco sombrio para a humanidade, atribuindo a tragédia a uma repetida falha das forças israelenses em cumprir as normas internacionais de guerra.
Em Deir el-Balah, Hani Mahmoud, correspondente da Al Jazeera em Gaza, descreveu a contagem oficial de mortos como "conservadora," observando que muitos ainda estão desaparecidos sob os destroços e que há famílias que não sabem o paradeiro de seus entes queridos.
A ofensiva israelense, alvo de acusações de genocídio na Corte Internacional de Justiça (CIJ), deslocou mais de 90% da população de Gaza e gerou uma crise humanitária, exacerbada pela negação de assistência humanitária essencial. Apesar de a CIJ ter ordenado que Israel permitisse a entrada de ajuda, julho registrou os níveis mais baixos de assistência desde o início do conflito, em outubro de 2023, quando o grupo Hamas lançou um ataque em Israel que deixou mais de 1.100 mortos, muitos deles civis israelenses.
Diante do agravamento das condições, epidemias como a poliomielite e a fome se alastram por Gaza. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que sem um cessar-fogo, mesmo que temporário, o risco de propagação dessas doenças pode ultrapassar fronteiras.
O estudo mais recente, publicado na revista The Lancet, estimou que o número total de mortos pode chegar a 186 mil, representando cerca de 8% da população total de Gaza. Além disso, a guerra tem sido a mais mortal para jornalistas na história moderna, com 113 profissionais da mídia mortos, dos quais 108 eram palestinos.
Repórteres palestinos, que permanecem na linha de frente do conflito, têm enfrentado condições extenuantes e o constante perigo dos ataques israelenses para documentar o sofrimento dos civis. Enquanto isso, jornalistas estrangeiros continuam proibidos de entrar na Faixa de Gaza.
Os Estados Unidos têm desempenhado um papel central no conflito, fornecendo suporte logístico e armamentista para a campanha israelense, apesar das denúncias de violações flagrantes do direito internacional. Na semana passada, a administração Biden anunciou a liberação de mais 20 bilhões de dólares (cerca de R$ 96 bilhões) em vendas de armas para Israel.
Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, criticou duramente a falha do sistema jurídico internacional em prevenir atrocidades como as que estão ocorrendo em Gaza. "Este sistema nasceu após a Segunda Guerra Mundial para prevenir e punir atrocidades como essa, mas falhou. Isso nos mostra a enorme hipocrisia do sistema, onde poucos Estados poderosos têm a capacidade de determinar para quem a lei internacional se aplica e para quem não se aplica, e Israel está claramente na última categoria. Isso é inaceitável," concluiu Albanese.
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