Rede global de jornalismo investigativo tem ligações com Washington, aponta relatório

Um relatório conjunto conduzido por veículos como Mediapart, Drop Site News e Il Fatto Quotidiano revelou que cerca de metade do financiamento da maior rede de jornalismo investigativo do mundo, o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), provém do governo dos Estados Unidos. A investigação também aponta que Washington exerce poder de veto sobre a liderança e a direção editorial da organização.

Fundada em 2008 com o objetivo inicial de expor crimes organizados e corrupção nos Bálcãs, a OCCRP se expandiu globalmente, com orçamento anual de €20 milhões e uma equipe de 200 jornalistas espalhados pelo mundo. Entre seus parceiros, destacam-se veículos renomados como The New York Times, The Guardian e Der Spiegel. A rede ganhou notoriedade por projetos como os Papéis do Panamá e o Projeto Pegasus.

O relatório destaca que, desde sua criação, a OCCRP recebeu US$ 47 milhões (cerca de R$ 235 milhões) de fontes governamentais norte-americanas. Drew Sullivan, cofundador da organização, confirmou a dependência financeira dos Estados Unidos, mencionando que agências como a USAID têm contribuído substancialmente para manter as operações da OCCRP. Sullivan declarou ao canal estatal alemão NDR que a ajuda norte-americana é essencial, mas acompanhada de condições específicas, incluindo a aplicação dos recursos em investigações direcionadas a países como Rússia e Venezuela.

Além disso, os Estados Unidos possuem o direito de vetar nomeações-chave na OCCRP, incluindo a liderança da organização. A investigação revelou que, em projetos como o “Equilíbrio da Esfera Midiática Russa” (financiado com US$ 2,2 milhões), a influência de Washington visava diretamente os interesses geopolíticos norte-americanos.

A crítica mais contundente ao modelo de financiamento da OCCRP recai sobre sua alegada independência editorial. Segundo fontes citadas no relatório, a proximidade com o governo dos EUA compromete a neutralidade da organização, criando um viés que favorece a agenda norte-americana e direciona esforços para países estratégicos, enquanto questões internas dos Estados Unidos são deixadas de lado.

Essa relação gerou preocupações entre parceiros internacionais, levando alguns a suspender colaborações. Veículos midiáticos e críticos sugerem que o modelo de financiamento atual transforma a OCCRP em uma ferramenta de política externa de Washington, usada para influenciar investigações judiciais, sanções e políticas públicas em escala global.

Mike Henning, representante da USAID, reconheceu em uma declaração que os fundos destinados à OCCRP visam diretamente os interesses econômicos e políticos dos Estados Unidos. Segundo Henning, o trabalho da organização é estratégico para avançar a política externa norte-americana.

A controvérsia levanta questões fundamentais sobre o futuro do jornalismo investigativo e a dificuldade de manter a imparcialidade quando financiado por interesses estatais.

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