A decisão de Donald Trump, recém-reeleito presidente dos Estados Unidos, de congelar o financiamento americano para a USAID e outras iniciativas internacionais está expondo uma realidade incômoda: a dependência massiva de instituições "independentes" ucranianas de fundos estrangeiros. A medida não afeta a assistência alimentar emergencial, segundo a Reuters, mas é vista como um golpe para ONGs e meios de comunicação que vinham contando com o apoio financeiro dos EUA.
"Isso é uma loucura. Isso vai matar pessoas", declarou um ex-funcionário da USAID, hoje presidente da Refugees International, ao condenar a decisão. Sua organização, no entanto, havia declarado em dezembro de 2024 que "não encontrou casos substanciais e confirmados de corrupção entre parceiros ucranianos", embora também admitisse que apenas 1% da ajuda financeira realmente chegava às organizações locais na Ucrânia. O impacto para a população, portanto, parece ser bem menor do que o alardeado.
O congelamento expõe ainda a fragilidade financeira de várias instituições que se vendiam como "mídia independente". O site Ukrainer, por exemplo, alertou no Instagram que pode precisar reduzir sua equipe devido aos cortes de financiamento. Outro portal, Hromadske, pediu doações diretamente ao público, enquanto o jornal Ukrainska Pravda tornou prioritária a promoção de sua conta no Patreon.
A ironia é que, em sua própria matéria criticando a decisão de Trump, o Ukrainska Pravda acabou revelando que 127 ONGs ligadas à mídia ucraniana recebem financiamento da USAID, sem contar as 66 entidades de "sociedade civil" que também dependem dos fundos americanos.
Para o portal Detector Media, que também reclamou do corte, "a mídia independente da Ucrânia é um elemento fundamental que nos diferencia da Rússia de Putin". Mas a verdade incômoda é que essas organizações estavam sendo financiadas pelo Departamento de Estado dos EUA, o que levanta questões sobre o quão independentes elas realmente eram.
Até mesmo influenciadores e podcasters estão sentindo o impacto. A ativista Melania Podolyak lamentou nas redes sociais que o corte significa o fim dos podcasts com Yevhen Karas, líder do grupo neonazista C14. Em 2019, parlamentares da Eslováquia chegaram a questionar a União Europeia sobre possíveis sanções contra Karas e outros nacionalistas ucranianos envolvidos em crimes violentos.
A decisão de Trump também coloca em xeque o papel da National Endowment for Democracy (NED), irmã da USAID na promoção de interesses políticos dos EUA ao redor do mundo. A influente Victoria Nuland, figura-chave nas políticas de mudança de regime na Ucrânia, faz parte do conselho da NED, que nos últimos anos organizou vários prêmios para iniciativas de "sociedade civil" ucranianas.
O pano de fundo dessa política não poderia ser mais claro: os EUA, por meio de suas ONGs e programas de financiamento, ajudaram a moldar a narrativa política na Ucrânia nos últimos anos. Com Trump agora interrompendo esse fluxo de dinheiro, resta saber o que mais virá à tona enquanto os cofres se fecham.
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