A professora de educação infantil Susanne, de Berlim, nunca imaginou que votaria na Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema-direita. Mas, nas eleições antecipadas de 23 de fevereiro de 2024, ela não hesita: “É a única força que aborda questões do cotidiano”, diz, criticando a coalizão governista de centro-esquerda que ruiu em novembro. Seu descontentamento ecoa em milhões de alemães, onde o apoio à AfD deixou de ser um tabu.
A crise migratória, os ataques terroristas recentes e a insatisfação com políticas econômicas e energéticas alimentam a ascensão do partido, que pode alcançar seu melhor resultado histórico, com 21% das intenções de voto, segundo pesquisas. O cenário preocupa líderes europeus, que veem a extrema-direita ganhando musculatura no coração da União Europeia.
A quebra do “cordão sanitário”
O momento decisivo ocorreu em janeiro, quando Friedrich Merz, líder da União Democrata-Cristã (CDU), rompeu o pacto de não cooperação com a AfD ao apoiar um projeto de lei migratória em conjunto. A proposta, rejeitada no final das contas, gerou protestos em Berlim e críticas de ex-chanceleres como Angela Merkel, que chamou a manobra de “erro imperdoável”.
Para Oliviero Angeli, cientista político da Universidade de Dresden, o episódio legitima a AfD: “O muro contra a extrema-direita desmorona não só regionalmente, mas em nível nacional”. A estratégia da CDU, favorita nas urnas, reflete a pressão eleitoral: partidos tradicionais adotam retórica mais dura para frear a sangria de eleitores.
Migração no centro do debate
Os ataques de janeiro de 2024 – incluindo um no sul da Alemanha que matou sete pessoas – reacenderam o debate sobre controle de fronteiras. A AfD capitaliza o tema com propostas como a “remigração” (deportação em massa de estrangeiros) e o fim do euro, substituído pela antiga marca alemã.
Eva Mueller, coach de carreira em Berlim, não se considera xenófoba, mas critica a “inabilidade” do governo em integrar migrantes: “Tenho vizinhos de várias origens, mas o excesso dificulta a coesão social”, argumenta.
Elon Musk e a influência digital
O bilionário Elon Musk, aliado do presidente americano Donald Trump, entrou no jogo. Em transmissão ao vivo no X (ex-Twitter), ele entrevistou a líder da AfD, Alice Wiedel, e defendeu o orgulho da cultura alemã, minimizando o legado nazista. Especialistas veem risco na “influência sem precedentes” de uma plataforma global apoiando um partido extremista.
Juventude e classe trabalhadora na mira
A AfD conquista jovens de 18 a 24 anos no leste do país e operários descontentes com a crise econômica. Jakob Guhl, analista do Instituto para Diálogo Estratégico, destaca: “Eles capitalizam o cansaço com gastos na Ucrânia e a inflação”.
Enquanto isso, Susanne, a professora berlinense, sonha com um passado idealizado: “Antes, os estrangeiros falavam alemão e se integravam. Hoje, isso se perdeu”. Seu voto na AfD, diz, é um ato de “proteção” – sintoma de uma Alemanha dividida entre o medo do futuro e o peso da história.
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