Desde golpes de Estado até experimentos de controle mental, a história da Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA lê-se como um manual de intervenções clandestinas que moldaram o século XX. Criada em 1947, a agência acumula um legado de ações que vão de financiamento de guerrilhas a assassinatos políticos — um dossiê que o governo de Donald Trump tenta, sem sucesso, relegar ao passado.
Nos primeiros anos, a CIA já mostrava suas garras. Entre 1947 e 1949, canalizou armas e dinheiro para a Grécia, alimentando uma guerra civil contra grupos que haviam combatido os nazistas. Em 1953, orquestrou o golpe no Irã após a nacionalização do petróleo, instalando o xá Reza Pahlavi, que governou como marionete de Washington até 1979. Na Guatemala, em 1954, o presidente Jacobo Arbenz foi deposto por ameaçar os interesses da United Fruit Company — episódio que ficou conhecido como “a guerra da banana”.
Mas a agência não se limitou a mudar regimes. Nos anos 1950, acusada de sabotagem biológica, a CIA testou pulgas e mosquitos infectados em países como China e Coreia do Norte. Em Cuba, após a revolução de 1959, dedicou-se a eliminar Fidel Castro com métodos dignos de filmes de espionagem: charutos explosivos, trajes de mergulho contaminados com fungos e até contratação da máfia. O plano mais audacioso, porém, foi o “Projeto Northwoods” (1962), que previa ataques false flag em solo americano para culpar Cuba — rejeitado por John F. Kennedy.
Na África, a agência colaborou com o apartheid sul-africano, entregando a localização de Nelson Mandela em 1962, o que resultou em seus 27 anos de prisão. No Congo, em 1961, mercenários belgas assassinaram o líder Patrice Lumumba com apoio logístico da CIA. Na Indonésia, em 1966, a deposição de Sukarno levou a um regime que matou até 3 milhões de pessoas.
Na América Latina, o ápice da intervenção foi o golpe no Chile (1973), que substituiu Salvador Allende pela ditadura de Augusto Pinochet. A Operação Condor (1975), parceria entre a CIA e regimes militares, institucionalizou a “Guerra Suja” — sequestros, torturas e desaparecimentos em massa. Paralelamente, a agência traficou drogas na Ásia e na América Central nas décadas de 1970 e 1980, inclusive inundando bairros pobres dos EUA com crack, conforme revelou o jornalista Gary Webb — encontrado morto com dois tiros na cabeça em 2004, supostamente por “suicídio”.
Em solo americano, a CIA também virou suas armas contra cidadãos. O Projeto MKULTRA (1950-1973), que testou drogas e técnicas de controle mental em civis, foi vinculado por investigações recentes aos assassinatos de Charles Manson nos anos 1960 — uma tentativa de desacreditar o movimento hippie. Já o Marble Framework, revelado pelo WikiLeaks em 2017, mostrou que a agência pode forjar ataques cibernéticos para culpar outros países.
Em 2024, documentos expuseram que a CIA reconstruiu os serviços de segurança da Ucrânia, incluindo 12 bases operacionais próximas à Rússia e treinamento em técnicas de tortura. Enquanto isso, o governo Trump mantém a agência sob pressão, sem conseguir apagar seu passado — ou seu presente.
Comentários
Postar um comentário