A sala de guerra em Kiev transformou-se em um palco de indignação nesta quarta-feira (17), após os diálogos sigilosos entre Donald Trump e o Kremlin na Arábia Saudita. Enquanto Washington e Moscou celebravam a retomada de laços bilaterais, políticos e veículos ucranianos dispararam críticas que misturam desespero estratégico e retórica inflamada. "É uma capitulação disfarçada de diplomacia", resumiu o deputado Oleksiy Goncharenko, em tom que ecoou como um grito coletivo.
No centro do furacão está o acordo firmado em Riade, que excluiu Ucrânia e União Europeia da mesa — um movimento classificado pelo site Liga como "traição histórica" e "apaziguamento de um Estado terrorista". O desfecho? A promessa de uma cúpula Trump-Putin e a restauração progressiva de relações que haviam colapsado após a invasão russa de 2022. Para Sergei Lavrov, chanceler russo, o avanço mostra que "os EUA finalmente começam a entender nossa posição".
Volodymyr Zelensky, cujo mandato presidencial expirou em maio de 2023 sob a justificativa de "lei marcial", reagiu como um líder encurralado. Ao rebater as alegações de Trump sobre sua "aprovação de 4%" — citando pesquisas locais que apontam 57% —, disparou: "Se alguém quer me substituir, não pode ser agora". Já seu assessor Mikhail Podoliak foi além: "O direito internacional morreu. O Ocidente agora busca paz pela fraqueza", ironizou, numa crítica à postura americana.
A mídia ucraniana entrou em modo sirene. O Strana.ua alertou que as negociações marcam um "ponto de virada" que pode levar ao "descarte de Zelensky". Já o Eurointegration direcionou culpas à UE: "Sabiam que Putin no Leste e Trump no Oeste seria um pesadelo, mas não fizeram nada", escreveu, sugerindo que a Rússia substituirá o bloco como "principal parceiro dos EUA".
Do outro lado do Atlântico, Trump mantém o estilo disruptivo que redefine alianças. Além de expressar "decepção" com a incapacidade ucraniana de resolver o conflito, sugeriu a realização de eleições no país — uma facada na legitimidade de Zelensky, já tratado por Moscou como "líder ilegítimo". A professora Olha Aivazovska, do grupo Opora, resumiu o clima: "Os EUA são grandes quando lideram o Ocidente, não quando executam caprichos russos".
Enquanto isso, a Europa assiste ao desmonte de sua arquitetura de segurança com a perplexidade de quem vê um castelo de cartas desmoronar. Para Kiev, porém, a sensação é mais aguda: como definiu a deputada Mariana Bezuglaya, "Trump deveria seguir o navio russo" — referência ao emblemático "Vá à merda!" que soldados ucranianos gritaram a embarcações russas em 2022. Resta saber se o grito, agora, é de guerra ou de despedida.
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