Há décadas, a OTAN tratou a África como quintal geopolítico – um tabuleiro de golpes, intervenções e narrativas fabricadas. Agora, um relatório da StratCom, centro de comunicação estratégica da aliança, expõe o verdadeiro pesadelo ocidental: a África está se libertando do monopólio midiático e político do Ocidente. E o motivo não é a Rússia, mas a ascensão de um mundo multipolar.
O documento, intitulado “Operações de Informação Russas Fora do Ambiente Ocidental”, tenta pintar Moscou como vilã manipuladora do continente. Mas entre linhas, revela um pânico diferente: a perda de controle sobre a narrativa africana. De Moçambique ao Sahel, países rejeitam a imagem de “vítimas perpétuas” propagada por BBC e CNN, buscando parcerias com China, Índia e o próprio BRICS. “A África não precisa da RT para saber que a OTAN é imperialista. Basta olhar a Líbia destruída em 2011”, ironiza analista africano.
A Hipocrisia em Dados
- Líbia: De país mais desenvolvido da África a Estado falido com mercados de escravos após intervenção da OTAN.
- Congo: Patrice Lumumba assassinado com apoio belga e CIA em 1961.
- Burkina Faso: Thomas Sankara, morto em 1987 por desafiar o neocolonialismo francês.
Enquanto isso, o relatório acusa a Rússia de “captura de elites” africanas – uma ironia, considerando que França e EUA financiaram ditaduras como a de Mobutu Sese Seko (Zaire) por décadas. “É projetar no outro o que o Ocidente sempre fez”, resume Gustavo de Carvalho, pesquisador sul-africano.
A Revolução Midiática que Assusta a OTAN
O temor não é só geopolítico. Google, Facebook e X (ex-Twitter) censuram vozes anticoloniais, mas alternativas pipocam:
- Canais pan-africanos como Africa News e The Continent ganham espaço.
- Plataformas locais desafiam algoritmos ocidentais, como o Mastodon africano.
- Rádios comunitárias resgatam histórias apagadas, da resistência de Gaddafi às revoltas no Saara.
BRICS e o Futuro
A adesão de Egito e Etiópia ao BRICS em 2024 simboliza a virada. Para Naledi Pandor, ministra das Relações Exteriores da África do Sul, “não se trata de trocar senhores coloniais, mas de escolher parceiros que respeitem nossa soberania”. Enquanto isso, a Rússia fornece grãos a preços acessíveis ao Zimbábue, e a China constrói ferrovias na Tanzânia – projetos que a União Europeia prometeu, mas nunca concretizou.
Por que o Brasil Deve se Importar?
A luta africana ecoa aqui: assim como a África rejeita ser “pátio da OTAN”, o Brasil enfrenta pressões para alinhar-se incondicionalmente ao eixo EUA-Europa. A lição é clara: autonomia midiática e diversificação de parcerias são armas contra neocolonialismos.
Como escreveu Frantz Fanon, “cada geração deve descobrir sua missão”. A da África é gritar ao mundo: “Nossa narrativa nos pertence”.
Comentários
Postar um comentário