Dói muito ouvir as pessoas vivas embaixo dos escombros e não poder fazer nada", diz palestino em Gaza
Os lamentos ecoam entre as ruínas deixadas pelos ataques aéreos na Faixa de Gaza. Sob os escombros de edifícios destruídos, sobreviventes clamam por ajuda, uma dolorosa realidade descrita pelo tradutor palestino Kayed Hammad em uma entrevista à BBC News Brasil.
Hammad relata que os moradores da região ouvem os gritos de socorro, porém, se veem impotentes diante da tragédia. "E nem mesmo os bombeiros conseguem ajudar, porque não há ferramentas para resgatar essas pessoas. E tentar ajudar significa arriscar a própria vida."
Ele compartilha a agonia das pessoas presas nos destroços, aguardando desesperadamente por socorro ou, às vezes, pela morte.
"Dói muito ouvir quando as pessoas estão vivas, mas presas sob os escombros de suas casas destruídas. Você sabe que estão vivas, mas não pode fazer nada para ajudar", lamenta.
Para esse palestino de 59 anos, a situação atual é uma das mais dramáticas que já testemunhou, desde o início da escalada do conflito entre Israel e o Hamas.
Reações Globais à Tragédia
Até a presente data, pelo menos 3.300 pessoas perderam a vida nos ataques israelenses em Gaza, de acordo com o ministro da Saúde palestino.
O conflito se intensificou após o ataque do grupo militante palestino Hamas a Israel em 7 de outubro.
Até o momento, autoridades locais reportam cerca de 1.400 mortos em Israel.
Um Testemunho Pessoal
Hammad nasceu na Faixa de Gaza e reside ali com sua esposa, quatro filhos e os pais de sua companheira. Sua casa, no norte da região, foi severamente afetada pelos bombardeios israelenses e acabou completamente destruída. Ele relata a perda de todos os pertences. "Se a guerra acabar hoje, ficaremos desabrigados."
A atual residência da família pertence a parentes distantes, e esta é a quarta ou quinta habitação que ocupam desde o início dos ataques, pois todas as anteriores foram alvo de bombardeios.
Olhando pela janela, Hammad e sua família assistiram à tragédia se desdobrar na Faixa de Gaza. "Durante a minha vida, já vivi sete ou oito conflitos, mas nada se compara ao que estamos vivendo agora."
Através das janelas das casas em que estiveram, ele relata ter visto edifícios serem atingidos por bombas e pessoas morrendo, enquanto outras tentavam sobreviver sob os destroços.
"Tenho visto muita coisa. Bombas caíram por todos os lados, dia e noite. Estamos sem eletricidade, sem água, sem comida, sem saneamento, com muitas casas destruídas e um alto número de mortos. Há ainda muitos corpos sob os escombros que não puderam ser resgatados, pois faltam ferramentas para isso", lamenta o palestino.
"Nem eu, nem os bombeiros, nem ninguém poderia retirar essas pessoas dos escombros. Recentemente, bombardearam duas estações de bombeiros e também atingiram algumas ambulâncias", relata.
Uma Busca Incansável por Sobrevivência
Neste momento, não há previsão de deixar a região, de acordo com Hammad. Ele alega que não há lugar seguro para onde ir.
"Nosso objetivo principal agora é sobreviver, por um milagre. Não sabemos o que o futuro nos reserva. Bombas estão caindo por toda parte, e nossa única sorte é estar vivo, juntamente com minha família. Não há lugar seguro por aqui."
Ele expressa gratidão por não ter perdido familiares próximos, mas entre os parentes mais distantes, não tem informações precisas sobre quem sobreviveu. "Não conseguimos entrar em contato com todos por telefone, então não sabemos. Pode haver surpresas quando a guerra terminar", afirma.
Desespero Diante da Falta de Ajuda Humanitária
Hammad e sua família carregam seus celulares através de geradores sempre que possível.
Para sobreviver, eles consomem água que não é potável e alimentos adquiridos em mercados próximos que ainda têm estoques. No entanto, evitam sair às ruas, pois é uma questão de vida ou morte.
Diante das imensas dificuldades, Hammad lamenta a falta de ajuda humanitária. "Não permitiram a entrada de ajuda ou medicamentos. Não permitiram absolutamente nada", indigna-se.
Nas áreas próximas a Gaza, há comboios com alimentos e outros itens para auxiliar a população. No entanto, essas áreas estão fechadas desde o início da guerra, e o abastecimento na região está severamente comprometido.
"É necessário que interrompam o que estão fazendo conosco aqui. Somos civis e também temos direitos, como qualquer outro lugar do mundo", declara o palestino.
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