Atlas da Violência 2023 Revela Face Oculta de Homicídios no Brasil: Um Diagnóstico Urgente

Brasil Oculta Quase 50 Mil Mortes com Perfil de Homicídio, Aponta Atlas da Violência

No palco sombrio da violência brasileira, as cortinas se abrem para uma revelação estarrecedora: quase 50 mil mortes com características de homicídio permanecem nas sombras das estatísticas oficiais, conforme desvendado pelo recém-lançado Atlas da Violência 2023, uma colaboração entre o Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea) e o Fórum de Segurança Pública.

Entre 2011 e 2021, o país registrou um impactante total de 616 mil homicídios. Contudo, o Atlas destaca mais 126.382 mortes violentas sem causa identificada, além de outras 49.413 mortes que compartilham características de homicídio, mas permanecem excluídas das estatísticas oficiais, batizadas pela pesquisa como "homicídios ocultos".

Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência 2023, destaca as consequências diretas desse cenário alarmante. Ele ressalta que o número de registros de homicídios está subestimado, refletindo uma falta de clareza sobre as circunstâncias dessas mortes violentas, uma lacuna que se ampliou notavelmente a partir de 2019.

"A tragédia da violência persiste, em parte, devido à pobreza na qualidade dos dados. Para criar políticas públicas efetivas, é crucial basear-se em evidências. Precisamos de um diagnóstico preciso, um planejamento estratégico e uma avaliação de longo prazo", compara Cerqueira, enfatizando a importância de um termômetro confiável para abordar a violência.

Embora a taxa de homicídios tenha experimentado uma redução de 18,3% nesta década, o Atlas ressalta que a população socialmente mais vulnerável continua sendo a mais afetada pela violência. O Brasil mantém uma taxa de homicídios 20 vezes maior do que países europeus, uma realidade que desafia qualquer aceitação ou normalização.

Os dados revelam uma narrativa desigual, onde as pessoas negras representam 77% das vítimas nos mais de 616 mil homicídios registrados em 10 anos. Os homicídios de pessoas indígenas cresceram 29%, concentrando-se principalmente nos estados de Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul.

A violência contra a mulher, conforme destaca o Atlas, apresenta contornos alarmantes, com 49 mil assassinatos entre 2011 e 2021. O ambiente doméstico tornou-se o epicentro desse flagelo, registrando um aumento de 4,72% nos assassinatos de mulheres dentro de suas residências nesta década. Mulheres negras são as principais vítimas, enfrentando uma taxa de mortalidade 1,8 vezes maior do que mulheres não negras.

Cerqueira sugere hipóteses para esse aumento da violência contra grupos minoritários, apontando para a desestruturação e desfinanciamento de políticas públicas, além dos efeitos devastadores da pandemia, especialmente no caso da violência contra as mulheres.

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