Desde as acirradas eleições de 2022, meu afastamento das redes sociais foi um ato de autopreservação diante do cenário tóxico que se desenrolava. A toxicidade não emergia dos debates políticos em si, mas sim dos ataques pessoais que obscureciam os reais temas em discussão. Nesse ambiente polarizado, o foco se deslocava para quem era mais corrupto, quem roubava mais, quem mentia mais, desviando-se do cerne das propostas políticas.
Os candidatos que disputaram o segundo turno protagonizaram debates lamentáveis, destacando-se pelas cenas constrangedoras e pelo uso exacerbado das redes sociais. O vitorioso enfocava feitos passados, enquanto o derrotado inovava atacando as instituições e questionando o processo eleitoral, ameaçando a democracia ao levantar a possibilidade de eleições condicionadas ao voto impresso.
Vale recordar os ataques sistemáticos às urnas eletrônicas e a disseminação de fake news durante o mandato anterior, evidenciando uma estratégia coordenada a partir do Palácio do Planalto, com financiamento de empresários bolsonaristas.
Meu distanciamento das redes não se deveu apenas ao esvaziamento político pós-eleitoral, mas principalmente ao comportamento dos eleitores do vencedor e dos correligionários do perdedor. Ambos agiam como seitas, intolerantes a críticas ou argumentos racionais. Era uma realidade em que o diálogo se mostrava infrutífero, onde a verdade dos fatos perdia seu valor.
Avançamos para 2024, um ano após o terceiro mandato de Lula. A conjuntura atual proporciona posicionamentos desconcertantes sobre diversas questões, desde o genocídio palestino até a invasão de terras indígenas, permeando o pedido de anistia aos envolvidos no evento de 8 de janeiro e as relações políticas com líderes latino-americanos.
Limitado no acesso às redes sociais, deparei-me com uma cena na ensolarada capital paranaense que ilustra a persistência das bolhas ideológicas. Uma conversa acalorada na cafeteria revelou a polarização entre apoiadores de Bolsonaro e críticos de Lula. A troca de acusações, desinformação e a recusa em confrontar os erros do próprio candidato evidenciaram a dificuldade de romper com essas bolhas.
Esse episódio se assemelha a outras experiências que evidenciam a narrativa paralela criada pelos bolsonaristas. A propagação de fake news, a negação de fatos e a resistência em discutir as ações de Bolsonaro revelam a força do bolsonarismo, que já se organiza para as eleições de 2026, infiltrando-se em conselhos tutelares, eleições municipais e estruturas políticas.
A resistência a essa narrativa envolve a necessidade urgente de fortalecer o controle social das instituições políticas e promover mudanças estruturais. A mobilização deve vincular as demandas populares a projetos que superem as desigualdades, abordando temas como acesso à terra, trabalho regulamentado, seguridade social e desmilitarização das polícias.
O dilema não reside entre tensionar as ruas e arriscar a ascensão da extrema-direita ou apostar no imobilismo até 2026. A verdadeira solução está em participar ativamente da disputa política, desafiando as narrativas paralelas e promovendo um projeto progressista que aborde as reais necessidades da população.
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