Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em curso há uma década, revelou um fenômeno marcante nas recentes manifestações políticas de direita no Brasil. De acordo com os dados coletados pelo Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPoPAI), as demonstrações de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro têm se caracterizado por uma crescente inclinação ideológica à direita.
Desde sua implementação, o Monitor do Debate Político no Meio Digital, uma iniciativa multidisciplinar que abrange diversas áreas do conhecimento acadêmico, analisou aproximadamente 50 manifestações. O estudo mais recente, realizado durante um dos atos em defesa de Bolsonaro, evidenciou um aumento significativo no número de participantes que se identificam como adeptos da direita política.
Segundo os resultados, no evento ocorrido no último domingo (25) na Avenida Paulista, a autodeclaração como "de direita" atingiu um patamar alarmante: 90% dos entrevistados afirmaram se situar nesse espectro ideológico. Além disso, mais de 95% se autodenominaram como "conservadores", sendo que 78% se caracterizaram como "muito conservadores" e 18% como "um pouco conservadores".
Esses números contrastam drasticamente com levantamentos anteriores realizados em eventos políticos similares. Por exemplo, em uma manifestação ocorrida em março de 2017, apenas 49% dos participantes se identificaram como "de direita" ou "centro-direita".
O professor Marcio Moretto, um dos coordenadores do GPoPAI, ressalta a singularidade desse movimento político, enfatizando que a autodenominação como "conservador" não reflete necessariamente uma posição conservadora no sentido estrito. Ele sugere que os participantes desses atos buscam, na verdade, uma espécie de "revolução para trás", ansiando por resgatar valores que consideram perdidos no passado. Moretto descreve esse fenômeno como mais reacionário do que conservador.
Além da caracterização ideológica, a pesquisa também revelou aspectos demográficos significativos sobre os participantes dessas manifestações. A maioria é composta por homens brancos com mais de 45 anos, com nível superior de educação e residentes na região metropolitana de São Paulo.
Entretanto, é importante destacar que esse perfil não representa fielmente a diversidade do eleitorado brasileiro. A acessibilidade limitada da Avenida Paulista, onde muitos desses eventos ocorrem, contribui para a predominância desse grupo demográfico nas manifestações.
Outro aspecto relevante observado na pesquisa é a postura dos participantes em relação a medidas extremas. A maioria se mostrou contrária à decretação de estado de sítio, à arbitragem das Forças Armadas e à implementação da operação Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Esses dados sugerem que, embora apoiem Bolsonaro como uma alternativa ao Partido dos Trabalhadores (PT), os manifestantes não necessariamente endossam medidas golpistas.
O contexto político atual, marcado por investigações sobre supostas tentativas de golpe de Estado envolvendo o ex-presidente Bolsonaro, adiciona uma camada adicional de complexidade a essas manifestações.
A pesquisa, realizada durante o evento na Avenida Paulista, entrevistou uma amostra representativa de 575 pessoas, com uma margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou para menos e um grau de confiança de 95%. O GPoPAI não conduziu observações nas redes sociais durante o evento, devido às crescentes restrições de acesso aos dados nessas plataformas.
Em seu discurso durante o protesto, Bolsonaro abordou temas como as investigações criminais relacionadas a tentativas de golpe de Estado e criticou as ações do Supremo Tribunal Federal (STF), além de solicitar anistia para os envolvidos nos eventos de 8 de janeiro de 2023.
Comentários
Postar um comentário