Uma pesquisa recente sobre a "Percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil" revela que a maioria dos brasileiros defende o aumento ou a manutenção dos investimentos públicos em pesquisa científica e tecnológica. O estudo, divulgado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), mostra que 94% dos entrevistados acreditam que o governo deve investir mais ou manter os atuais níveis de financiamento. Apenas 3% sugeriram a redução desses investimentos.
Mesmo em um cenário global marcado pela desinformação e pelo negacionismo científico, o Brasil se destaca pelo interesse e otimismo da sua população em relação à ciência. A pesquisa, que entrevistou 1.931 pessoas acima de 16 anos, também apontou que 95% dos brasileiros reconhecem a existência das mudanças climáticas, e 60% consideram esse fenômeno um grave perigo.
Ciência e Tecnologia em Alta
O estudo, realizado em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), evidenciou que o interesse por ciência e tecnologia entre os brasileiros permanece estável há duas décadas. Cerca de 60% dos entrevistados demonstram interesse por esses temas, superando o interesse por esportes (54,3%), arte e cultura (53,8%) e política (32,6%).
Yurij Castelfranchi, coordenador do Observatório de Inovação, Cidadania e Tecnociência (Incite) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que o interesse dos brasileiros pela ciência é superior ao observado em outros países, apesar das crises sociais e políticas. Segundo ele, a ciência tem uma relevância social significativa para os brasileiros, mesmo que muitos não se sintam parte dela.
Visão Positiva da Ciência
A visão positiva sobre ciência e tecnologia se mantém alta no Brasil. Dos entrevistados, 66% acreditam que a ciência traz mais benefícios do que malefícios para a sociedade. Este percentual é superior ao registrado em países como Japão e Canadá. Castelfranchi observa que, apesar da polarização política e radicalização nas redes sociais, a parcela da população que vê a ciência como prejudicial é pequena, variando entre 4% e 6%.
Desinformação e Inclusão Científica
Embora o interesse e as atitudes positivas dos brasileiros em relação à ciência sejam notáveis, o conhecimento sobre o tema ainda é baixo. A maioria não sabe o nome de uma instituição científica ou de um cientista brasileiro. Este quadro começou a mudar com a pandemia de COVID-19, quando a ciência nacional ganhou visibilidade devido ao desenvolvimento de vacinas.
O estudo também identificou que os hábitos culturais e o acesso a informações sobre ciência melhoraram. Visitas a museus de ciência, tecnologia e artes voltaram a crescer em 2023, principalmente entre jovens e pessoas com maior escolaridade e renda. No entanto, a visitação espontânea a esses espaços ainda é predominantemente elitista.
Desafios e Oportunidades
Para Castelfranchi, a educação científica é crucial para combater a desinformação e incluir mais brasileiros na cidadania científica. O perfil dos que declaram não ter interesse em ciência permanece inalterado: são pessoas com baixa escolaridade e renda. São essas pessoas as mais vulneráveis à desinformação e aos movimentos negacionistas.
"A cidadania contemporânea é científica. Não tem como exercer cidadania sem participar ativamente da cultura científica. Precisamos de políticas específicas de letramento midiático e científico para diferentes regiões e classes sociais", conclui Castelfranchi.
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