Os carros elétricos chineses enfrentam desafios significativos nos mercados dos EUA e da UE, devido às tarifas elevadas e preocupações de concorrência desleal.
No início deste ano, o entusiasta de carros elétricos Anders Berner testou com entusiasmo um BYD Seal nos arredores de Copenhague, Dinamarca. Como engenheiro mecânico, Berner já estava impressionado com os avanços dos fabricantes chineses de veículos elétricos, como a BYD Auto, em um curto espaço de tempo.
"Muitos veículos elétricos chineses são feitos com materiais de excelente qualidade e montados com precisão – são carros de alta qualidade", afirmou Berner ao Al Jazeera. Ele acredita que, em termos de tecnologia de baterias, as empresas chinesas lideram o mercado global.
Berner é um dos que veem nos veículos elétricos chineses o potencial para dominar o mercado automobilístico mundial, especialmente por sua acessibilidade em comparação com as marcas ocidentais. Na União Europeia, por exemplo, esses veículos costumam ser 20% mais baratos do que os modelos fabricados localmente, segundo a Comissão Europeia.
A fabricante de baterias CATL, que fornece para Tesla, Volkswagen, BMW e outros fabricantes chineses de veículos elétricos, detém cerca de 40% do mercado mundial de baterias para EVs. Em abril, a CATL lançou a primeira bateria com uma autonomia de mais de 1.000 quilômetros com uma única carga.
Os veículos elétricos chineses estão conquistando mercados internacionais. A BYD, sediada em Shenzhen, vendeu 525.409 EVs globalmente no último trimestre do ano passado, superando os 484.507 veículos da Tesla. A China quase ultrapassou o Japão como maior exportador de carros do mundo, com 5,22 milhões de veículos vendidos no exterior.
Na União Europeia, a participação de mercado dos veículos elétricos chineses aumentou para 8,2% em 2023, ante 0,5% em 2019. A Federação Europeia de Transportes e Meio Ambiente projeta que essa participação subirá para 11% este ano e pode chegar a 20% até 2027.
Entretanto, o rápido crescimento dos veículos elétricos chineses está sendo ameaçado por preocupações crescentes nas capitais ocidentais. O presidente dos EUA, Joe Biden, declarou que a política industrial da China representa uma ameaça à segurança nacional, prometendo não permitir que seus fabricantes "inundem" o mercado americano com seus veículos. Em maio, Biden anunciou que quadruplicaria as tarifas sobre os veículos elétricos chineses para 100% e triplicaria as tarifas sobre as baterias de íons de lítio para 25%.
A União Europeia tem ecoado as preocupações dos EUA. Na quarta-feira, a Comissão Europeia anunciou que novas tarifas, variando de 17,4% a 38,1%, seriam impostas sobre os veículos elétricos chineses a partir de 4 de julho, a menos que Pequim ofereça uma "solução" para os subsídios que distorcem o mercado. Essas tarifas se somam às já existentes de 10%, aproximando-se dos 50% estimados pelo Rhodium Group como necessários para conter as importações de EVs chineses na UE.
A medida, no entanto, pode desencadear uma guerra comercial com a China, conforme alerta Rene Toender, consultor estratégico independente da indústria automobilística na Escandinávia. Até o momento, Pequim qualificou o aumento das tarifas da UE como um "caso típico de protecionismo" e prometeu tomar todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e interesses.
Além de correr o risco de retaliação chinesa, as medidas dos EUA e da UE ameaçam minar os esforços para reduzir as emissões de carbono e mitigar os efeitos das mudanças climáticas. O governo dos EUA planeja encerrar as compras governamentais de carros movidos a combustíveis fósseis até 2035, enquanto a UE pretende proibir a venda de novos carros a gasolina e diesel em todo o bloco a partir da mesma data.
Toender observa que tais metas serão inalcançáveis sem acesso aberto à indústria de veículos elétricos chinesa, dado que a UE representa menos de 10% da produção mundial de baterias, enquanto a China fornece cerca de 76%. "Não há capacidade de bateria suficiente em outros lugares para substituir a produção chinesa", afirma Toender.
Enquanto isso, Pequim está posicionando a indústria de veículos elétricos como um pilar fundamental para o desenvolvimento econômico futuro da China, segundo Kasper Ingeman Beck, pesquisador da transição verde liderada pelo estado chinês na Copenhagen Business School. Em 2015, o governo chinês destacou os "veículos de novas energias" como uma indústria-chave para garantir a prosperidade do país sob o plano industrial "Made in China 2025".
"Acreditamos que o Partido Comunista Chinês vê uma janela estreita de 10 a 15 anos para aproveitar e moldar transformações tecnológicas inovadoras, que são vistas como a única opção para elevar o país de uma nação de renda média para uma de alta renda", disse Beck ao Al Jazeera.
Essa abordagem resultou na criação de um campo lotado de fabricantes de veículos elétricos na China, impulsionados por investimentos públicos – um modelo econômico que, segundo Toender, a economia chinesa provavelmente não conseguirá sustentar a longo prazo. "Atualmente, as empresas de automóveis chinesas estão travando uma luta brutal pela sobrevivência, o que leva a uma rápida inovação e redução de preços."
A feroz concorrência e o excesso de investimentos têm levado as empresas chinesas a fabricar entre 5 e 10 milhões de veículos excedentes por ano. "Muitos acabam sendo exportados como uma consequência não intencional do modelo econômico baseado em investimentos, e não por design", explica Beck.
Em Copenhague, Berner afirmou que seu test drive do BYD Seal não o impressionou completamente. "Está onde deveria estar, mas não encanta", disse ele, acrescentando que muitos veículos elétricos chineses são menos refinados para dirigir do que seus pares europeus. "Ainda há espaço para melhorias."
Apesar das pressões enfrentadas pelos veículos elétricos chineses, Berner está convencido de que eles se tornarão uma visão cada vez mais comum nas estradas europeias. "E acredito que eventualmente aceitaremos os veículos elétricos chineses", concluiu.
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