Queimadas de Combustíveis Fósseis e Desmatamento Dobram Chances de Inundações Devastadoras no Brasil

Estudo revela que tragédias como as que mataram 169 pessoas no sul do Brasil se tornarão mais frequentes se emissões não forem reduzidas.

As inundações intensas e prolongadas que devastaram o sul do Brasil foram, pelo menos, duas vezes mais prováveis devido às ações humanas de queima de combustíveis fósseis e desmatamento, conforme aponta um estudo recente.

A catástrofe, que levou à morte de 169 pessoas, destruiu lares e arrasou colheitas, foi agravada pelo desmatamento, cortes de investimentos e incompetência humana. Cientistas internacionais preveem que desastres dessa magnitude – os piores já registrados na região – se tornarão mais comuns no futuro se não houver uma drástica redução nas emissões de gases de efeito estufa que aquecem o planeta.

Centenas de milhares de pessoas no estado do Rio Grande do Sul e no Uruguai ainda tentam reconstruir suas vidas após um mês de chuvas persistentes que deslocaram 80.000 pessoas e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais, como eletricidade e água potável.

No auge das chuvas, em 1º de maio, a cidade de Santa Maria registrou um recorde de 213,6 mm de chuva em 24 horas. Em apenas três dias, a capital do estado, Porto Alegre, recebeu o equivalente a dois meses de chuva, transformando ruas em rios, estádios de futebol em lagos e danificando gravemente o aeroporto internacional da cidade, que permanece fechado.

O custo econômico é estimado em mais de R$ 5 bilhões, e o impacto devastador na agricultura deve aumentar os preços do arroz – o Rio Grande do Sul é responsável por 90% da produção brasileira – e de produtos lácteos em todo o país.

A concentração da região na agricultura veio a um custo alto. Os autores do estudo indicam que, nas últimas décadas, defesas naturais contra inundações, como florestas ribeirinhas e pântanos, foram desmatadas para dar lugar a campos, muitas vezes em violação de regulamentos ambientais pouco aplicados.

A catástrofe em Porto Alegre foi agravada por defesas contra inundações inadequadas, projetadas para suportar seis metros de água, mas que falharam com apenas 4,5 metros. Nos últimos anos, governos municipais reduziram investimentos nessas proteções, apesar dos avisos de que a região, baixa e desmatada, na confluência de cinco grandes rios, seria cada vez mais vulnerável às inundações devido à mudança climática causada pelo homem. Além de serem incapazes de conter as águas crescentes, as barreiras de inundação da capital estadual prenderam a água, retardando o processo de secagem e recuperação.

Cientistas do grupo World Weather Attribution confirmaram a forte influência humana no desastre de inundações, o quarto a atingir o estado mais ao sul do Brasil no último ano e meio. Eles analisaram um período de quatro e dez dias de chuvas combinando observações meteorológicas com resultados de modelos climáticos. Concluíram que a mudança climática induzida pelo homem tornou a chuva extrema duas a três vezes mais provável e cerca de 6% a 9% mais intensa. Essa influência foi similar ao efeito natural do fenômeno El Niño.

Além de aumentar a frequência e a intensidade das chuvas fortes, o aquecimento global empurrou a faixa tropical mais ao sul, atuando como uma barreira no centro do Brasil que bloqueia frentes frias vindas da Antártica. Como resultado, inundações que antes eram mais comuns no norte, em Santa Catarina, agora são mais prováveis no Rio Grande do Sul. Mais de 90% do estado, que cobre uma área do tamanho do Reino Unido, foi afetado.

Os autores do estudo também destacaram que o aquecimento global está aumentando a frequência de eventos El Niño e La Niña, associados a condições meteorológicas extremas. Não houve um ano neutro sem um ou outro nos últimos dez anos.

Olhando para o futuro, em um mundo que continuará a aquecer devido às emissões de carros, fábricas e desmatamento, os cientistas descobriram que desastres como esse se tornariam de 1,3 a 2,7 vezes mais prováveis no Rio Grande do Sul se o aquecimento global subisse do nível atual de 1,2°C para 2°C, o que é cada vez mais provável. "Esses eventos se tornarão mais frequentes e severos", conclui o estudo.

Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, disse que o clima no Brasil já mudou: "Este estudo de atribuição confirma que as atividades humanas contribuíram para eventos extremos mais intensos e frequentes, destacando a vulnerabilidade do país às mudanças climáticas. É essencial que os tomadores de decisão e a sociedade reconheçam essa nova realidade."

Para minimizar o impacto potencial de futuros desastres, os autores sugerem um planejamento urbano mais abrangente, maior investimento em defesas contra inundações e maior atenção ao desenvolvimento social equitativo, pois as inundações podem criar uma "armadilha da pobreza" em que as comunidades de baixa renda estão nas áreas mais vulneráveis.

A prioridade deve ser proteger e reforçar barreiras naturais, como florestas e pântanos, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina. "As mudanças no uso da terra contribuíram diretamente para as inundações generalizadas ao eliminar proteções naturais e podem exacerbar a mudança climática ao aumentar as emissões."

No entanto, a medida mais importante continua sendo a redução rápida da queima de árvores e combustíveis fósseis que está causando uma carnificina crescente em todo o mundo.

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