Mais de 400 mil iranianos deram início a uma ação coletiva contra cidadãos e entidades dos EUA, acusados de envolvimento no golpe de 19 de agosto de 1953, que derrubou o então primeiro-ministro iraniano democraticamente eleito, Mohammad Mossadegh. Organizado pela CIA e pelo MI6, o golpe é amplamente considerado o marco inicial das operações de mudança de regime lideradas pelos Estados Unidos em várias partes do mundo nas décadas seguintes.
O processo, que começou oficialmente em um tribunal de Teerã, visa responsabilizar seis cidadãos e entidades dos EUA por sua suposta participação no golpe. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Nasser Kanaani, comentou o caso em uma coletiva de imprensa, destacando a cooperação entre o governo e o judiciário iranianos na busca pelos direitos do povo iraniano. Kanaani sublinhou que documentos divulgados ao longo dos anos comprovam a responsabilidade dos EUA e do Reino Unido na operação que interferiu diretamente no processo democrático do Irã.
Kanaani ressaltou que o golpe de 1953 foi o ponto de partida para a hostilidade contínua dos EUA contra o Irã, criando uma dívida histórica que, segundo ele, os Estados Unidos jamais poderão apagar. A ação judicial refere-se a uma série de danos causados ao Irã, desde o saque de seus recursos petrolíferos até a imposição de tratados e acordos neocoloniais. Entre os exemplos mencionados estão o Pacto de Bagdá e a separação do Bahrein do Irã em 1971.
Shami Aghdam, advogado dos reclamantes, apontou para documentos desclassificados que incriminam a CIA e o MI6 no planejamento e execução do golpe. Aghdam argumenta que as ações dos EUA e do Reino Unido violaram normas internacionais, visando manter sua influência no governo iraniano para garantir seus próprios interesses e explorar os recursos do país.
Embora o Irã enfrente dificuldades para obrigar os EUA a pagar qualquer compensação, a nação já demonstrou que pode buscar outros meios para recuperar os danos. Um exemplo disso ocorreu em março, quando um tribunal iraniano ordenou a apreensão da carga de um petroleiro de propriedade dos EUA, como parte de uma decisão favorável a vítimas de sanções econômicas impostas pelos EUA.
Os EUA, embora não neguem sua participação no golpe de 1953, ignoraram as demandas de compensação até o momento. Documentos detalhando o papel dos serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido começaram a ser desclassificados há cerca de uma década. Em 2013, o governo dos EUA reconheceu oficialmente sua participação na operação de mudança de regime, conhecida como Operação Ajax nos EUA e Operação Boot no Reino Unido.
O golpe contra Mossadegh foi desencadeado, em grande parte, pela decisão de 1951 de nacionalizar a Anglo-Persian Oil Company, hoje conhecida como BP, e pelos temores ocidentais de que o Irã, sob um movimento nacionalista e independente, pudesse se aproximar da União Soviética.
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