A sociedade israelense se encontra profundamente dividida após a detenção de dez soldados acusados de um brutal estupro em grupo de um prisioneiro palestino, registrado em vídeo. O incidente ocorreu no centro de detenção de Sde Teiman, no deserto de Negev, no sul de Israel.
O vídeo, confirmado pela Al Jazeera, mostra o prisioneiro sendo selecionado de um grupo maior de indivíduos amarrados no chão. Ele é então conduzido até uma parede, onde os guardas, usando seus escudos para ocultar suas identidades, o estupram. O ataque foi tão violento que, após ser transferido para o hospital, a mídia israelense relatou que a vítima estava impossibilitada de caminhar.
Os dez soldados foram presos em 29 de julho, gerando um tumulto na sociedade israelense. Os militares pertencem à unidade Force 100, encarregada da segurança do local, segundo o Haaretz. Três dos soldados foram liberados em 4 de agosto, somando-se a outros dois que haviam sido soltos anteriormente após uma audiência em um tribunal militar em Kfar Yona em 30 de julho. Naquele dia, manifestantes se reuniram para apoiar os soldados detidos.
O vídeo causou um choque profundo em muitos setores da sociedade israelense. Observadores, incluindo um grupo local de direitos humanos e duas agências da ONU, expressaram preocupações sobre o tratamento dos prisioneiros palestinos.
Contudo, para alguns, como o ministro da Fazenda de extrema-direita do país, a indignação se concentrou mais no "crime" de gravar o vídeo do que no estupro alegado. Em uma postagem na rede social X, anteriormente Twitter, Bezalel Smotrich exigiu "uma investigação criminal imediata para localizar os responsáveis pela divulgação do vídeo que visava prejudicar os reservistas e que causou imenso dano a Israel no mundo".
Outros políticos de direita e ultranacionalistas, como o Ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, argumentaram que qualquer ação – até mesmo o estupro em grupo – seria aceitável se realizada em prol da segurança do estado.
Após a prisão dos reservistas, em 29 de julho, multidões de extrema-direita, incluindo ministros do governo, invadiram o centro de detenção de Sde Teiman, sem sucesso. Depois, se dirigiram à base de Beit Lid, a 60 km de distância, onde os soldados estavam sendo interrogados, pedindo pela liberação dos mesmos.
Essa turbulência continuou durante uma audiência na alta corte, convocada para ouvir petições de prisioneiros de Sde Teiman que alegavam tortura. O processo foi interrompido por manifestantes, incluindo vítimas do ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro, que gritaram “Desgraça” e “Somos os soberanos”.
O grupo de pressão israelense Guarding the Soldiers, formado para defender os soldados acusados de estupro, foi citado na mídia israelense dizendo que “a audiência na alta corte pela manhã é absurda e um presente para [o líder do Hamas] Yahya Sinwar e assassinos”.
Políticos israelenses, incluindo membros do gabinete, também defenderam os acusados. Ben-Gvir, responsável pelo serviço prisional, declarou que era “vergonhoso” para Israel prender “nossos melhores heróis”. No mesmo dia, Smotrich, que havia participado da invasão ao presídio, publicou uma mensagem em vídeo, afirmando que “os soldados das IDF merecem respeito” e não devem ser tratados como “criminosos”.
Quando questionado pelo deputado árabe Ahmad Tibi, se era legítimo “inserir um bastão no reto de uma pessoa”, Hanoch Milwidsky, membro do partido Likud de Netanyahu, respondeu: “Se ele é um Nukhba [militante do Hamas], tudo é legítimo fazer! Tudo!”
A gravação do suposto estupro em grupo em Sde Teiman é a mais recente evidência de abuso, agressão sexual e negação sistemática de comida e cuidados médicos enfrentados pelos palestinos dentro do sistema prisional israelense.
Um relatório intitulado "Welcome to Hell", publicado esta semana pelo grupo de direitos humanos israelense B’Tselem, inclui depoimentos de 55 prisioneiros palestinos detidos em centros israelenses desde 7 de outubro. Nas entrevistas, os prisioneiros, a maioria dos quais foi posteriormente liberada sem acusação, relatam ter sido agredidos, insultados e abusados sexualmente por guardas.
“As condições em Sde Teiman não são únicas. Elas são apenas a ponta do iceberg”, afirmou Shai Parnes, porta-voz da organização, à Al Jazeera por telefone de Jerusalém. “Ouvimos relatos semelhantes de abuso sexual, fome e agressão de prisioneiros em 16 locais diferentes em Israel. É deprimente. À medida que reuníamos os depoimentos, percebemos que cada testemunho era quase idêntico, independentemente da idade, gênero ou local. Não há dúvida. Esse tipo de abuso é sistemático”, acrescentou.
As alegações de abuso sistemático dentro de um sistema de justiça criticado por estar fundamentalmente em desacordo com o direito internacional também foram detalhadas em um relatório separado publicado na segunda-feira pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUR) e em um relatório não publicado da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA).
Respondendo aos alertas sobre superlotação no sistema prisional pelo serviço de segurança Shin Bet no início de julho, Ben-Gvir reiterou seu pedido para que prisioneiros palestinos fossem executados, tuitando que um de seus principais objetivos desde que assumiu o cargo era “piorar as condições dos terroristas nas prisões e reduzir seus direitos ao mínimo exigido pela lei”.
Ele declarou: “Tudo o que foi publicado sobre as condições abomináveis” dos palestinos presos em prisões israelenses “era verdade”.
A posição dos direitos humanos está em debate. Os Estados Unidos, principal aliado de Israel, chamaram as alegações de abuso sexual de prisioneiros palestinos de “horríveis”, afirmando que Israel deve investigar “rapidamente” e “completamente”.
O porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, disse à mídia na quarta-feira: “Deve haver tolerância zero para abuso sexual, estupro de qualquer detido. Ponto final. Essa é uma crença fundamental dos Estados Unidos.”
Na quinta-feira, a União Europeia também expressou descontentamento. Peter Stano, porta-voz do serviço diplomático da UE, disse ao Politico: “A UE está gravemente preocupada com as alegações de violações e abusos dos direitos humanos, incluindo tortura e abuso sexual de detidos palestinos no centro militar de Sde Teiman em Israel e em outros lugares.”
No entanto, muitos dentro de Israel continuam a defender as condições em que os prisioneiros palestinos estão sendo mantidos, bem como o estupro alegado realizado pelos soldados em Sde Teiman.
“Veja, a questão realmente não é sobre estupro”, afirmou Ori Goldberg, analista político baseado em Tel Aviv, à Al Jazeera. “A questão é – Israel, ou israelenses, podem ser repreendidos por qualquer coisa que façam em defesa do estado?”
Para alguns, explicou Goldberg, nenhum ato, por mais imoral que possa parecer ao mundo exterior, é proibido se realizado para avançar a segurança de Israel.
“Até tivemos um jornalista na televisão matinal criticando não o estupro, mas a forma ‘desorganizada’ como foi realizado”, acrescentou Goldberg.
Essa perspectiva permanece uma visão minoritária, advertiu. No entanto, mesmo entre os liberais israelenses que se opõem a essa visão sobre seu país e suas ações, pouco se pensa nas vítimas palestinas.
“Oh, isso não tem nada a ver com as vítimas,” disse Goldberg, “isso é tudo sobre Israel.”
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