Em 6 de agosto de 1945, o presidente Harry Truman anunciou ao mundo que um avião americano, o Enola Gay, havia lançado uma bomba sobre Hiroshima. Com o poder equivalente a 200 mil toneladas de TNT, a bomba matou 140 mil pessoas em questão de minutos. Truman alertou que os Estados Unidos estavam preparados para obliterar rapidamente toda e qualquer atividade produtiva no Japão. Poucos dias depois, outro avião americano, o Bockscar, lançou uma bomba similar sobre Nagasaki, tirando a vida de 74 mil pessoas. O Japão, então, rendeu-se incondicionalmente.
Desde então, a decisão de usar bombas atômicas é alvo de controvérsia. Nos Estados Unidos, o debate é acalorado. Alguns conselheiros de Truman, como John McCloy, assistente do secretário de guerra, sugeriram alternativas ao uso dessas armas. No entanto, as bombas foram lançadas, e desde então a sensibilidade sobre a questão se intensificou. Em 1995, o Instituto Smithsonian cancelou uma exposição planejada do Enola Gay após críticas de grupos de veteranos e congressistas, que consideravam o enfoque nos efeitos devastadores das bombas excessivo e questionavam sua necessidade para encerrar a guerra.
No Japão, a lembrança dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki é inquestionável. As cerimônias que marcam os aniversários desses eventos são momentos solenes, clamando por paz mundial. O mundo, em geral, presta uma homenagem diplomática a essas ocasiões, reconhecendo a brutalidade desses atos de guerra sem necessariamente abordar a questão de sua necessidade.
Neste ano de 2024, no 79º aniversário dos bombardeios, uma nova controvérsia emergiu. A questão não era mais sobre a moralidade dos bombardeios, mas sim se o Japão deveria convidar um representante de um país que atualmente usa seu poder aéreo para cometer genocídio.
Controvérsia Recente
Este é o contexto: o prefeito de Nagasaki, Shiro Suzuki, decidiu não convidar o embaixador de Israel para a cerimônia de comemoração da cidade, mas convidou os palestinos. Enquanto isso, em Hiroshima, os organizadores, sob pressão externa, convidaram os israelenses, mas não incluíram um representante palestino.
Suzuki justificou sua decisão argumentando que a violência no Oriente Médio pode se expandir, ameaçando a paz que o Japão tanto prezava. Ao não convidar o embaixador israelense, o prefeito deixou claro quem ele acreditava ser o responsável por essa ameaça. Isso gerou uma polêmica considerável.
A resposta do governo dos EUA e de seus aliados foi previsível, ignorando o fato de que a avaliação de Suzuki estava alinhada com a de todas as organizações de direitos humanos respeitáveis, que acusam Israel de genocídio e apartheid. Tampouco importou que a maioria da população judaica de Israel apoie a expulsão ou aniquilação dos palestinos. A justificativa de Rahm Emanuel, embaixador dos EUA no Japão, foi de que Israel está agindo em legítima defesa em Gaza e que não se deve confundir as vítimas com os agressores.
O argumento de Emanuel é, na verdade, uma tentativa de encobrir a verdade, mas essa tática não é novidade. É similar à retórica usada pelos que se opuseram à exposição no Smithsonian anos atrás. Tanto em Nagasaki quanto em Gaza, a lógica de "autodefesa" é usada para justificar massacres, ignorando a realidade dos fatos.
Ilusionismo Retórico
Afirmar que algo é verdade, como dizer que a campanha israelense em Gaza é um ato defensivo ou que os bombardeios atômicos eram indispensáveis, não o torna verdade. Pode não ser lógico ou sensato, mas a Grande Mentira sempre foi uma força na história. E governos tendem a perpetuá-la, especialmente quando a população vive em um sistema fechado de crenças repetitivas, como ocorre com muitos judeus israelenses e seus apoiadores sionistas.
Quando essas narrativas são usadas para justificar a eliminação de uma ameaça, as ações resultantes, respaldadas pela solidariedade de grupo, podem suprimir os princípios éticos que sustentam uma sociedade civilizada. Fatos históricos são distorcidos para aliviar a consciência coletiva.
Talvez seja por isso que muitos americanos rejeitam "histórias revisionistas" sobre Hiroshima e Nagasaki. Da mesma forma, a desinformação sobre Gaza permite que Israel, imerso em uma bolha informativa que iguala palestinos a nazistas, invada Gaza com impunidade. É necessário recorrer à linguagem poética para encontrar as analogias certas.
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