Cidade à Beira do Colapso: O Preço da Busca pelo Ouro em Kwekwe, Zimbábue

A corrida ilegal pelo ouro está devastando a cidade de Kwekwe, rica em minerais e localizada na província de Midlands, Zimbábue. Dorothy Moyo, de 36 anos, vive em constante medo. A cada passo pelas ruas da comunidade de Globe e Phoenix, ela reza para que o solo não ceda sob seus pés, engolindo tudo à sua volta. Este temor é compartilhado por centenas de famílias que enfrentam o perigo iminente dos túneis clandestinos cavados por mineradores ilegais.

Em maio do ano passado, Moyo presenciou o colapso da escola Globe and Phoenix Primary, onde 14 crianças ficaram feridas quando uma sala de aula desabou devido a escavações ilegais. Os mineradores estavam perfurando pilares que sustentavam o prédio há mais de um século, transformando a estrutura da escola em um amontoado de destroços. A escola foi fechada permanentemente, deixando cerca de 900 estudantes sem local adequado para estudar, transferidos para uma escola vizinha ou improvisando aulas nos escritórios da mina.

Não foi um evento isolado. Em outra ocasião, uma casa foi tragada por um túnel subterrâneo, e, em áreas rurais ao redor da cidade, até o gado tem caído em buracos inesperados. O caos está enraizado na busca desesperada por ouro em Kwekwe, que é um dos principais polos mineradores do país, com uma vasta rede de minas, incluindo a histórica mina Globe and Phoenix, fundada em 1894.

A Ganância Diante da Ruína

Em 2019, o governo zimbabuense anunciou um ambicioso plano para impulsionar a economia com a mineração, visando alcançar um setor de 12 bilhões de dólares até 2023. Contudo, enquanto a mineração formal busca revitalizar a economia, a atividade ilegal cresce descontroladamente, colocando em risco a vida de milhares de moradores.

De acordo com a Associação de Direito Ambiental do Zimbábue (ZELA), o colapso da escola foi um "lembrete contundente de que a mineração irresponsável é um retrocesso que não pode ser tolerado". O problema se intensifica pela falta de fiscalização efetiva e pela participação de figuras políticas influentes, que facilitam as operações clandestinas e lucram com as atividades ilegais.

Em Kwekwe, as escavações ilegais se concentram em torno de minas desativadas, onde os mineradores atacam pilares de sustentação, corroendo as bases estruturais da cidade. Segundo Runyararo Priscilla Mashinge, ativista de direitos humanos e mineradora artesanal, os riscos aumentam a cada nova escavação perto do centro urbano. Ela defende que todas as atividades mineradoras nas áreas centrais e residenciais sejam proibidas para proteger a população.

Uma Cidade Sobre Túneles

Um estudo de 2024 da Agência Nacional de Geoespacial e Espaço do Zimbábue (ZINGSA) revelou um complexo sistema de túneis subterrâneos que se estende por 1,5 km abaixo de Kwekwe, ameaçando a estabilidade de toda a cidade. Mapas geoespaciais mostraram um labirinto de passagens que mina os pilares essenciais para a sustentação das estruturas urbanas, evidenciando o risco iminente de desmoronamentos.

A cidade enfrenta um dilema: enquanto busca aproveitar seus recursos minerais para impulsionar o desenvolvimento, precisa lidar com as consequências devastadoras da mineração descontrolada. O prefeito Albert Musungwa Zinhanga afirmou que a administração local está revisando as leis para aumentar a segurança, mas admite que a atualização das normativas não acompanha a escalada das atividades clandestinas.

No entanto, para muitos mineradores ilegais, conhecidos localmente como "makorokoza", a busca pelo ouro não é uma escolha, mas uma necessidade econômica. Eles seguem os túneis abandonados em busca do metal precioso, mesmo sabendo dos riscos. Protegidos por "mabosses" — figuras ligadas a políticos que operam as minas de forma ilícita —, esses mineradores continuam suas atividades, desafiando as tentativas de controle.

Conclusão

Enquanto o governo zimbabuense vislumbra um futuro de prosperidade através da mineração, as operações ilegais corroem as fundações da cidade de Kwekwe, transformando-a em um campo minado onde a vida de seus habitantes está constantemente em perigo. A cada nova escavação, o solo dá sinais de que não pode mais sustentar os sonhos de riqueza sem considerar o custo humano e ambiental de sua exploração desenfreada.

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