Richard Nixon, o presidente que renunciou à Casa Branca em meio ao escândalo Watergate, e Donald Trump, o ex-presidente que se recusou a aceitar a derrota em 2020, representam dois extremos da política americana. Nixon, meticuloso e reservado, sucumbia às próprias falhas nos bastidores; Trump, desbocado e autoconfiante, exibe suas transgressões em público. "Ele foi embora", diz Trump sobre Nixon. "Eu não saio."
Lembro-me da saída de Nixon. Há cinquenta anos, o helicóptero Marine One pousou no gramado da Casa Branca e, com um sorriso forçado, Nixon acenou com os braços levantados, simbolizando uma vitória vazia. O primeiro presidente americano a renunciar fazia de seu momento mais humilhante um show de estilo.
Na época, Trump enfrentava a Justiça por acusações de discriminação racial em seus empreendimentos imobiliários. Nixon, por sua vez, buscava aconselhamento psiquiátrico, sugerindo que futuros líderes deveriam passar por avaliações de saúde mental, algo que poderia ter poupado o país do espetáculo que Trump viria a oferecer décadas depois.
Nixon, um quacre nascido em uma família humilde, serviu na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo sendo isento do serviço militar. Já Trump, diagnosticado com esporão no calcanhar por um podólogo que alugava espaço de seu pai, evitou o serviço militar. Enquanto Nixon evitava divórcios por aversão a conversas francas sobre sexo, Trump se vangloriava de suas conquistas com modelos e estrelas da Playboy.
Em Nova York, Nixon tornou-se uma figura inesperada na minha vida profissional como diretor de arte do The New York Times. Em uma manhã de 1982, vi o nome de Nixon em um artigo sobre détente com a União Soviética, criticando a relutância de Reagan em se encontrar com os russos. Nixon, o arquiteto de um difícil equilíbrio entre EUA e URSS, escrevia com autoridade sobre um tema que Trump nunca compreenderia. Para Trump, despóticos são parceiros de uma "boa relação"; para Nixon, eram adversários a serem geridos com cautela.
Trump, que se envolve em disputas pessoais e políticas com a falta de dignidade de um reality show, nunca compreendeu as nuances que definiram Nixon. Ao contrário de Nixon, que assumiu seus próprios demônios e retirou-se da cena política com uma tentativa final de graça, Trump permanece em constante negação, recusando-se a aceitar qualquer falha.
A história desses dois presidentes reflete um contraste profundo entre um homem que destruiu a si mesmo e outro que ameaça destruir a própria democracia americana. A complexidade de Nixon, com todas as suas falhas e realizações, revela um líder que se debatia entre suas fraquezas pessoais e um senso de responsabilidade nacional. Já Trump, com sua recusa em aceitar a derrota e seu constante apelo ao caos, é o retrato de uma era em que a política se tornou um espetáculo vazio de substância.
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