Com o avanço dos bombardeios israelenses sobre o sul do Líbano, milhares de libaneses têm buscado refúgio no norte, especialmente em Beirute, uma cidade que já supera sua capacidade de acolhimento. Entre incertezas e medo, bairros inteiros da capital estão sendo tomados por pessoas que fugiram das áreas atingidas, ansiosas por um abrigo temporário.
A situação piorou quando os ataques, inicialmente focados no sul, começaram a se espalhar também pelo norte, atingindo bairros majoritariamente cristãos, desfazendo a suposição de que apenas regiões xiitas seriam alvos. Na terça-feira, a tensão era visível nas ruas do bairro de Hamra, onde famílias exaustas chegavam após mais de 12 horas de viagem, um percurso que em tempos normais seria feito em apenas duas.
Caos e Refúgio
No hotel Casa D’Or, na movimentada rua Hamra, um casal tentava negociar o valor da última suíte disponível. Lama, a recepcionista que trabalha no local há quatro anos, confessou nunca ter visto o hotel tão cheio. "Estamos lotados", disse ela, explicando que até dois dias antes, a taxa de ocupação era de apenas 40%. O casal, sem sucesso na negociação, saiu confuso para a calçada, tentando decidir o que fazer a seguir.
Nas proximidades, o Dr. Abbas, cardiologista, conseguiu encontrar um quarto para ele, sua esposa e seu filho, após uma jornada de 16 horas enfrentando um trânsito paralisado vindo do sul. "Estamos acostumados a isso", disse Abbas, que é da cidade de al-Mansouri, perto de Tiro. Ao invés de fugir para as montanhas, como fez em 2006, decidiu ir a Beirute, onde seu filho mais velho estuda medicina na Universidade Americana.
Embora estejam aliviados por estarem juntos na capital, o estresse e a raiva diante da situação permanecem. A esposa de Abbas desdenha das alegações de Israel de que o Hezbollah estaria armazenando armas em casas no sul: "Os israelenses são mentirosos", afirmou ela.
O Desespero por Segurança
Jovens sírios, trabalhadores de Hamra que vivem no bairro Bir Hassan, ao sul, andavam inquietos pelas ruas, sem coragem de voltar para casa devido aos bombardeios. Procurando refúgio no campo de refugiados palestinos de Shatila, eles faziam a pergunta que paira sobre todos: "Será que estamos seguros aqui?"
Outras duas mulheres, que vieram de Tiro para Beirute, encontraram hospedagem no Hotel Mayflower, mas descobriram que o pão havia acabado. Sua aflição logo atraiu a solidariedade de transeuntes que se uniram na busca pelo alimento escasso. Depois de várias tentativas frustradas, finalmente conseguiram alguns sacos de pão e recusaram qualquer pagamento pelas doações, num raro momento de alívio em meio ao caos.
Tentativas de Divisão
Para Salim Rayess, o objetivo de Israel é claro: fomentar divisões internas entre sunitas e xiitas. Mas, segundo ele, essa estratégia está falhando. A palavra "fitna", que significa um conflito interno com potencial para se transformar em guerra civil, ecoa entre os libaneses, que reconhecem os esforços israelenses para desestabilizar o país. Rayess, como muitos outros, estava engajado em ajudar os recém-chegados, organizando doações de alimentos para abrigos improvisados.
Enquanto isso, as histórias de perdas se acumulam. Um homem comenta com ironia sobre suas propriedades destruídas por Israel: “É melhor assim. Agora, só espero que destruam o que resta.”
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