Anura Kumara Dissanayake, com tendências marxistas, assumiu a presidência do Sri Lanka após vencer as eleições nacionais em meio a uma das piores crises econômicas da história do país. O novo chefe de Estado herda um cenário complexo, marcado por medidas de austeridade impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), em um acordo de resgate que ele promete renegociar.
A vitória de Dissanayake simboliza uma virada histórica no cenário político do Sri Lanka. Líder da Janatha Vimukthi Peramuna (JVP), um partido conhecido por suas insurreições contra o Estado nas décadas de 1970 e 1980, ele se destacou nas recentes manifestações populares que derrubaram o governo de Gotabaya Rajapaksa em 2022. No discurso de posse, o presidente eleito prometeu "uma nova cultura política", alinhada com as demandas por mudança vindas das ruas.
O caminho a seguir
Com 55,8% dos votos na segunda rodada, Dissanayake derrotou Sajith Premadasa, que obteve 44,2%. Sua ascensão ocorre em um momento em que o Sri Lanka enfrenta profundas divisões sociais e uma economia em colapso, agravada pelas políticas de austeridade do governo anterior. Os aumentos de impostos e tarifas de eletricidade, impostos pelo ex-presidente Ranil Wickremesinghe como parte do acordo com o FMI, penalizaram duramente as classes trabalhadoras e os mais pobres.
Dissanayake criticou abertamente o acordo de US$ 2,9 bilhões negociado por Wickremesinghe com o FMI e prometeu revisar os termos para aliviar o impacto sobre os mais vulneráveis. No entanto, ele não pretende romper completamente com o FMI, mas busca ajustes no acordo, que atualmente prioriza setores mais ricos da sociedade. Seu partido defende um modelo de economia protecionista, com foco na industrialização local e no fortalecimento das pequenas e médias empresas.
O desafio do Parlamento
Embora tenha o poder executivo, Dissanayake terá de lidar com um parlamento dominado por forças políticas adversárias. O partido da família Rajapaksa, o Sri Lanka Podujana Peramuna (SLPP), mantém a maioria com 145 das 225 cadeiras, enquanto a Aliança Nacional do Povo (NPP), liderada por Dissanayake, tem apenas três cadeiras. O novo presidente já indicou que pretende dissolver o parlamento e convocar novas eleições, buscando reconfigurar a representatividade após os protestos de 2022.
O futuro político do Sri Lanka está intrinsecamente ligado ao sucesso de Dissanayake em convocar eleições antecipadas e obter o apoio parlamentar necessário para implementar suas reformas. Pesquisas recentes sugerem uma disputa acirrada entre o NPP e o Samagi Jana Balawegaya (SJB), principal partido de oposição, liderado por Premadasa.
Questão Tamil e o legado da guerra civil
Apesar de ter conquistado a presidência, Dissanayake recebeu poucos votos da minoria tâmil, que representa 12% da população de 22 milhões de habitantes. Durante a campanha, os principais candidatos eram de origem cingalesa, e Dissanayake foi criticado por apoiar o governo Rajapaksa durante a guerra civil que terminou em 2009, com a derrota do grupo separatista Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE).
Embora tenha expressado apoio ao fim do conflito militar, o novo presidente pediu união em seu discurso de posse, buscando superar as divisões étnicas. A liderança tâmil mantém uma postura otimista, esperando que Dissanayake evite políticas sectárias e busque a reconciliação nacional.
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