O Papel da Mídia na Perseguição a Julian Assange

A libertação do jornalista australiano Julian Assange em junho de 2024 encerrou um calvário de quatorze anos, mas não exime de culpa aqueles que o perseguiram. Washington, Londres e Estocolmo, com a cumplicidade de uma instituição que deveria defender a verdade e proteger os inocentes — a imprensa —, falharam em apoiá-lo. Contrariando o que se espera de um jornalismo livre e investigativo, boa parte da mídia preferiu se distanciar de Assange.

Desde 5 de junho de 2024, após um acordo judicial com o Departamento de Justiça dos EUA, Julian Assange está em liberdade. No entanto, a recepção midiática a esse desfecho não foi nem de longe calorosa. Longe de celebrações eufóricas, o tom foi de reserva, com diversos veículos destacando suas críticas ao fundador do WikiLeaks. “Suas ações dividiram opiniões”, destacou o The Guardian (26 de junho de 2024), que publicou dezenas de artigos críticos a Assange. O New York Times descreveu-o como um "informante imprudente que colocou vidas em risco" (27 de junho). Para outros, ele era um "buscador de publicidade" (BBC, 25 de junho) ou suspeito de ter ligações com Moscou (Franceinfo, 25 de junho).

Essas críticas não são novas. Desde o início da saga, em 2010, Assange enfrentou ataques implacáveis da mídia. A personalidade e os métodos do fundador do WikiLeaks passaram a ser mais importantes do que as revelações feitas por ele, que incluíam documentos sobre crimes de guerra e abusos cometidos pelos EUA. A parceria inicial entre WikiLeaks e grandes veículos de comunicação, como The New York Times e The Guardian, que lucraram com as explosivas revelações, logo se desfez. Com o tempo, o foco da imprensa mudou de suas revelações para ataques pessoais ao jornalista.

O caso mais notório foi a acusação de que Assange havia colocado vidas em risco ao publicar documentos sem redigir nomes, acusação que foi repetida à exaustão, mas nunca comprovada. Em tribunal, os EUA não conseguiram fornecer uma única evidência de que alguém tenha sido ferido ou morto em decorrência das publicações do WikiLeaks. Mesmo assim, essa narrativa continuou a circular na mídia.

Além disso, as alegações de estupro que surgiram na Suécia em 2010 serviram para manchar ainda mais a reputação de Assange. Essas acusações, embora nunca tenham levado a uma condenação formal, foram amplamente divulgadas pela mídia, que ignorou investigações posteriores que apontaram falhas e manipulações no processo. O ex-relator da ONU sobre Tortura, Nils Melzer, foi um dos que denunciou essas irregularidades, sustentando que Assange foi alvo de um complô internacional.

Outro ponto polêmico foi a acusação de que Assange colaborou com o governo russo, especialmente durante as eleições presidenciais dos EUA em 2016. A mídia ocidental, especialmente o The Guardian, publicou matérias afirmando que Assange havia se encontrado com figuras ligadas a Moscou, mas essas informações foram posteriormente desmentidas. Mesmo assim, essa associação com a Rússia continua sendo usada para atacar sua credibilidade.

Em suma, o caso de Julian Assange expôs as fragilidades da imprensa, que, em vez de se unir em defesa de um colega que revelou informações de interesse público, optou por demonizá-lo. Sua perseguição foi, em muitos casos, amplificada pela própria mídia, que se distanciou de sua missão de falar a verdade ao poder.

Assange pagou um preço alto por fazer seu trabalho, e a imprensa, ao colaborar com sua perseguição, manchou ainda mais sua própria integridade.

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