Os ultra-ricos estão cada vez mais paranoicos em relação ao futuro ou simplesmente reconhecem, no fundo, que a extrema desigualdade na distribuição global de renda e riqueza os coloca, junto com o restante da população, em constante perigo? Esse cenário reflete uma realidade sombria, onde a concentração de riqueza alimenta a demanda por medidas cada vez mais sofisticadas de segurança.
O Robb Report, um serviço de notícias voltado para as elites globais, costuma focar nas tendências de consumo dos mais ricos, mas recentemente direcionou seu olhar para uma área sensível: a proteção pessoal. "Esqueça os mordomos", diz uma manchete recente. "Segurança privada é o novo serviço essencial para os ultra-ricos."
Empresas como a Samphire Risk se especializam em apólices de seguro que cobrem os ricos contra perigos que parecem afetar apenas essa parcela da população. Um exemplo citado descreve um acidente entre dois motociclistas endinheirados, onde um foi gravemente ferido e o outro sequestrado. A Samphire se orgulha de ser o "tecido conectivo" que soluciona crises de qualquer magnitude para esses clientes privilegiados.
Outro exemplo vem do grupo AHNA, liderado por um ex-militar sul-africano baseado em Dubai, que forneceu serviços de proteção a executivos de grandes corporações em mais de 500 viagens por 48 países. Mac Segal, o responsável pelo grupo, aconselha seus agentes a usarem frases curtas quando conversam com os clientes ricos: "Assim, o cliente pode encerrar a conversa quando quiser."
Para os ricos mais preocupados, até mesmo a tecnologia é mobilizada. Um aplicativo de inteligência artificial já oferece um “guarda-costas no bolso”, capaz de alertar o usuário caso o trajeto diário de sua limusine fuja da rota habitual.
Essa corrida global para garantir a segurança dos mais ricos está diretamente relacionada à crescente concentração de riqueza. De acordo com um relatório recente da Oxfam, um grupo humanitário internacional, o 1% mais rico do mundo possui mais riqueza do que os 95% mais pobres combinados. A análise, intitulada Multilateralismo em uma Era de Oligarquia Global, revela que grandes corporações e indivíduos ultra-ricos têm utilizado seus vastos recursos para moldar as regras globais a seu favor, muitas vezes em detrimento da maioria.
A concentração de riqueza atingiu níveis alarmantes. Desde 1987, como detalha o economista Gabriel Zucman, a riqueza combinada das 3.000 famílias mais ricas do mundo — que representam apenas 0,0001% da população global — ultrapassa os US$ 14 trilhões. Durante esse período, a fatia de riqueza acumulada por essas famílias quadruplicou. Enquanto isso, cerca de 46% da população mundial vive com menos de US$ 6,85 por dia.
O relatório da Oxfam também vincula a desigualdade de riqueza à crescente concentração corporativa. Sete das dez maiores corporações do mundo têm um bilionário como CEO ou acionista majoritário. Esses magnatas não apenas lucram com suas participações, mas influenciam diretamente as estratégias corporativas em áreas que vão desde a indústria farmacêutica até a publicidade digital.
Essa elite econômica utiliza seus recursos para pressionar governos a reduzir impostos, enfraquecer direitos trabalhistas e privatizar serviços públicos. Em 2022, as 182 maiores corporações dos EUA gastaram US$ 746 milhões em lobby, obtendo enormes retornos financeiros. Para cada dólar gasto, essas empresas garantiram US$ 130 em isenções fiscais e mais de US$ 4.000 em empréstimos, garantias e resgates federais.
Um efeito colateral dessa influência é que a pandemia de Covid-19 resultou em pelo menos 40 novos bilionários. No entanto, o impacto mais devastador dessa concentração de poder e riqueza pode estar no meio ambiente. Oxfam alerta que os dólares dos ultra-ricos continuam a ser desproporcionalmente investidos nas indústrias que mais contribuem para o colapso climático.
A única solução viável para enfrentar essas crises globais — seja ambiental, social ou econômica — é promover uma distribuição mais equitativa da riqueza. Como ressalta o relatório da Oxfam, o avanço real em qualquer questão crítica depende de uma conscientização coletiva, tanto no Hemisfério Norte quanto no Hemisfério Sul, de que o interesse comum reside em combater essas concentrações extremas de riqueza.
"A criação de uma ordem internacional mais equitativa", conclui o relatório, "beneficia a todos."
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