Ameaças dos EUA a Israel visam ganhar tempo até as eleições, afirmam analistas

A tensão entre Estados Unidos e Israel vem crescendo, especialmente após a divulgação de ameaças de Washington de cortar o envio de armas ao governo israelense caso não sejam tomadas ações urgentes para melhorar a situação humanitária em Gaza nos próximos 30 dias. A carta, assinada pelo secretário de Estado Antony Blinken e pelo secretário de Defesa Lloyd Austin, foi enviada aos ministros israelenses Yoav Gallant e Ron Dermer, exigindo uma ampliação da assistência humanitária à região palestina.

Apesar das pressões dos EUA, analistas, como a jornalista e economista libanesa Leila Hatoum, enxergam as ameaças como uma estratégia temporária. Para ela, Washington busca apenas ganhar tempo até as eleições presidenciais de 2024, evitando um agravamento da crise no Oriente Médio antes do pleito. "O que os americanos e israelenses estão fazendo é adiar qualquer decisão até as eleições nos Estados Unidos", destacou Hatoum, em entrevista ao Sputnik. "A necessidade econômica dos EUA, impulsionada pela indústria bélica, faz com que o conflito seja interessante para ambos os lados."

Denúncias de Violência e Tortura

As tensões no campo diplomático coincidem com uma série de denúncias sobre abusos cometidos por forças israelenses. Entre outubro de 2023 e agosto de 2024, a Comissão Independente da ONU para a Palestina relatou mais de 20 casos de violência sexual e de gênero em centros de detenção israelenses. Segundo o relatório, prisioneiros de ambos os sexos teriam sofrido agressões físicas e psicológicas, incluindo relatos de tortura e atos degradantes.

Um dos casos mais chocantes envolveu um palestino detido em novembro de 2023. Ele relatou que membros da unidade Keter, do Serviço Prisional de Israel, o forçaram a se despir e, posteriormente, a beijar a bandeira israelense. Diante da recusa, foi espancado de forma brutal, chegando a perder a consciência após os golpes nos genitais. A Comissão destacou que tais práticas visam desumanizar os palestinos, motivadas por um ódio extremo, conforme os termos do relatório.

Impasse Diplomático e a Reação Internacional

Os relatos de violência, que incluem a agressão a um prisioneiro em Sde Teiman, no sul de Israel, levaram a uma resposta internacional. Al Jazeera noticiou que o preso foi vítima de um estupro coletivo por guardas israelenses, precisando ser hospitalizado após o ataque. A reação de algumas autoridades israelenses, como o ministro de extrema-direita Bezalel Smotrich, se concentrou mais na divulgação do vídeo do ataque do que na própria violência cometida, o que gerou críticas de defensores de direitos humanos.

Enquanto isso, o cenário geopolítico se intensifica com o processo por genocídio que Israel enfrenta na Corte Internacional de Justiça (CIJ). A ação foi impulsionada pela ofensiva militar israelense em Gaza, que já resultou em mais de 42 mil mortes de palestinos, conforme números divulgados por autoridades locais. Em agosto de 2024, Bolívia se juntou oficialmente ao processo de genocídio movido pela África do Sul contra Israel na CIJ, uma tentativa de pressionar a comunidade internacional para que medidas mais severas sejam tomadas contra o Estado israelense.

Ceticismo sobre as Ações dos EUA

Hatoum também se mostrou cética quanto à possibilidade de um embargo de armas por parte dos EUA. Segundo ela, apesar das ameaças formais, os Estados Unidos continuam a enviar armamentos ao governo israelense, reforçando sua posição na região. "Mesmo que os americanos exijam uma melhoria nas condições humanitárias, eles continuam a fornecer bombas e outros armamentos sofisticados aos israelenses", afirmou. Ela vê nisso uma "complicidade internacional", onde o silêncio de potências globais permite a continuidade das ações militares israelenses.

A analista ainda pontuou que, nos últimos meses, o governo norte-americano teria utilizado as negociações de cessar-fogo entre Israel e Gaza apenas como um subterfúgio para reposicionar suas tropas no Oriente Médio. "Os EUA pediram um prazo de dois meses para uma solução de cessar-fogo, mas, enquanto isso, reorganizavam suas forças na região", concluiu. Para Hatoum, a postura de Washington e de Israel é um jogo de poder, cujo foco está em manter a estabilidade de suas posições até as eleições de novembro, enquanto a crise humanitária na Palestina persiste sem uma solução à vista.

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