Em 15 de setembro, completaram-se três anos desde a formalização do acordo AUKUS, uma aliança entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos. O principal objetivo do pacto é fornecer à Austrália submarinos nucleares, fortalecendo a interoperabilidade com as forças americanas no Indo-Pacífico, particularmente nas proximidades da China. Paralelamente, a Austrália participa de outras coalizões informais na região, como o QUAD e o SQUAD, consolidando seu papel estratégico. A cidade de Darwin, no norte do país, tornou-se uma base importante para as forças americanas, inclusive com a presença de aeronaves nucleares. Além disso, o território australiano abriga há tempos sistemas de satélites espiões dos EUA.
Essa postura segue a linha histórica da política externa australiana, que, há mais de um século, está alinhada com os interesses das grandes potências ocidentais, principalmente dos Estados Unidos. A classe capitalista australiana vê no domínio do Norte Global, em detrimento do Sul Global, o caminho para preservar seus próprios interesses. O crescente poder da China, ainda que não suficiente para derrotar os EUA, é percebido como uma ameaça ao status quo. A mídia australiana constantemente retrata a China como adversária, alimentando o discurso de que o Indo-Pacífico é o “quintal” da Austrália.
Uma Longa História de Alinhamento Imperialista
Há pelo menos 150 anos, a Austrália faz parte da rede de países ricos e industrializados, cujos recursos e poder advêm, em grande parte, da exploração imperialista e colonial do Sul Global. Mesmo com uma economia menor, grandes corporações australianas possuem investimentos espalhados por países do Sul Global, como Indonésia e Chile. Esse alinhamento imperialista também é um legado de invasões coloniais e genocídios ocorridos no século XIX, que permitiram o roubo de terras dos povos indígenas australianos.
Desde a Segunda Guerra Mundial, a Austrália compartilha os interesses estratégicos dos EUA, temendo que uma revolução socialista na Ásia ameaçaria o poder das potências imperialistas. Esse temor levou a uma série de campanhas propagandísticas contra o "perigo amarelo" da China comunista. Ao longo do século XX, tropas australianas foram enviadas para conflitos na Coreia, Malásia, Indonésia e Vietnã, antes mesmo da participação americana nesses conflitos.
Contradições no Capitalismo Australiano
Nos últimos anos, as relações comerciais entre Austrália e China cresceram consideravelmente. Entre 2017 e 2022, as exportações australianas para a China aumentaram 7,76% ao ano, totalizando 123 bilhões de dólares (cerca de R$ 615 bilhões) em 2022, segundo o Observatório da Complexidade Econômica. Embora a economia australiana dependa fortemente do comércio com a China, a política externa do país mantém uma retórica agressiva contra o governo chinês. Esse paradoxo reflete o dilema da classe capitalista australiana: como manter relações comerciais vantajosas com a China, enquanto fortalece laços militares e estratégicos com o Ocidente?
A única voz dissidente significativa nesse cenário é a do ex-primeiro-ministro trabalhista Paul Keating, que argumenta que a China não representa uma ameaça à segurança da Austrália. Segundo Keating, a Austrália deveria priorizar relações econômicas mais fortes com a China, em vez de seguir uma política militarista de contenção.
Oposição ao AUKUS e Movimentos Pacifistas
A oposição ao AUKUS, embora presente, é fraca e fragmentada, centrada principalmente em partidos como os Verdes e em movimentos pacifistas. Os Verdes criticam o pacto com base nos altos custos, perda de soberania militar e preocupações ambientais com o armazenamento de resíduos nucleares. Embora ocasionalmente façam declarações progressistas sobre a China, não lideram grandes campanhas públicas contra o AUKUS.
Grupos pacifistas, como a Rede Australiana Independente e Pacífica e a Coalizão Anti-AUKUS, também se opõem ao acordo. No entanto, essas organizações têm pouca influência e visibilidade. Isso reflete a decadência da esquerda radical na Austrália nos últimos 20 anos, especialmente entre aqueles que veem a luta entre o Norte Global e o Sul Global como central.
Possíveis Soluções e Caminhos Fututos
Não há uma solução mágica para superar a fraqueza da oposição ao AUKUS. A construção de um movimento eficaz contra o imperialismo exige tempo e paciência. Uma das estratégias mais promissoras seria amplificar as vozes dos movimentos populares da Ásia e levá-las ao público australiano, especialmente aos jovens, que começam a questionar a posição da Austrália no cenário geopolítico. A realização de visitas de líderes e ativistas asiáticos à Austrália poderia desempenhar um papel crucial nesse processo, ajudando a reverter a narrativa imperialista que domina o país.
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