O conflito entre Israel e o Hezbollah, que se intensificou nos últimos meses, desencadeou uma crise humanitária massiva, com milhões de pessoas sendo forçadas a abandonar suas casas no Líbano. A violência, marcada por bombardeios incessantes e a iminente invasão israelense, agravou as condições de um país já fragilizado por uma crise econômica profunda.
Na última sexta-feira, a casa de Dina*, uma moradora do campo de refugiados palestinos de Burj al-Barajneh, em Beirute, foi severamente danificada após uma explosão causada por uma onda de choque de um ataque aéreo israelense. O alvo do bombardeio foi um complexo residencial em Dahiyeh, um subúrbio ao sul da capital libanesa, a cerca de dois quilômetros do campo. A ofensiva destruiu edifícios e matou o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, além de um número ainda incerto de civis, deixando milhares desabrigados.
O ataque, que devastou também pequenas lojas e veículos no campo de refugiados, lançou pânico entre os moradores. Dina, ao perceber a gravidade da situação, correu para resgatar seu irmão mais novo e sua mãe, que estava soterrada sob escombros. “Minha mãe estava desorientada, mas eu sabia que mais bombas viriam, então a levantei e corremos para sair de casa”, relatou Dina à Al Jazeera, já em segurança em Hamra, um bairro central de Beirute que acolheu milhares de deslocados.
Crise sem precedentes
Desde que Israel intensificou seus ataques, a situação humanitária no Líbano se deteriorou rapidamente. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), cerca de um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas, 90% desse total apenas na última semana.
Com o governo interino libanês enfraquecido, operando sem presidente e lidando com uma economia à beira do colapso, a capacidade de resposta à crise tem sido insuficiente. Mais de 500 escolas foram convertidas em abrigos temporários, onde milhares dormem em condições precárias. Outros tantos buscam refúgio em mesquitas, sob pontes e nas ruas. A situação, já crítica, tende a se agravar com o início da ofensiva terrestre israelense.
O professor Karim Emile Bitar, especialista em relações internacionais da Universidade Saint Joseph, em Beirute, alerta para a dimensão da crise: “Uma invasão terrestre só vai agravar a situação. Já temos mais de um milhão de pessoas deslocadas, um número similar ao que vimos na invasão de 1982, quando Israel chegou a Beirute.”
Logo após o anúncio da invasão terrestre, Israel ordenou a evacuação de 29 vilarejos no sul do Líbano, deixando milhares sem escolha senão buscar refúgio no norte do país. Muitos, no entanto, permanecem relutantes em abandonar suas casas, mesmo sob a ameaça de bombardeios.
A longa jornada para a segurança
Abdel Latif Hamada, um agricultor de 57 anos, foi uma dessas vítimas. Na semana passada, ele fugiu de sua aldeia no sul do Líbano após uma série de bombardeios. “Perdi meu vizinho para uma bomba e tive que arriscar minha vida para salvar outro, que ficou preso sob os escombros”, contou Hamada, que, apesar de ter conseguido escapar, enfrentou uma jornada de 14 horas até Beirute, trajeto que normalmente levaria quatro.
Ao longo do caminho, Hamada testemunhou o caos nas estradas, congestionadas por carros que fugiam dos bombardeios, enquanto destroços e pedras das casas destruídas bloqueavam as vias. “A cada momento, aviões israelenses lançavam bombas ao nosso redor. Tive que descer várias vezes do carro para limpar a estrada”, relembra.
Para Hamada, essa não foi a primeira vez que precisou deixar sua casa. Israel o deslocou anteriormente em 1982 e novamente em 2006, quando sua esposa foi morta em um ataque aéreo. “Não tenho mais medo por mim. Tenho medo do que o futuro reserva para a próxima geração.”
Deslocamento permanente?
Há uma crescente preocupação de que o atual êxodo de civis libaneses se torne definitivo. Michael Young, especialista do Carnegie Middle East Centre, acredita que a estratégia israelense visa criar uma crise humanitária prolongada, com o objetivo de enfraquecer o Hezbollah. “O que preocupa é o que Israel fará após a invasão. Há um risco real de que as vilas esvaziadas nunca sejam reconstruídas, como ocorreu em Gaza.”
Enquanto isso, Dina e Hamada, como muitos outros, aguardam o dia em que poderão voltar para suas casas. Apesar das condições desesperadoras nos abrigos temporários, Dina disse que parte de sua família já retornou ao campo de Burj al-Barajneh, agora uma cidade-fantasma. Ela teme que Israel esteja transformando o Líbano em um reflexo do desastre que ocorreu em Gaza. “Estão fazendo aqui o mesmo que fizeram lá. Esta é uma guerra contra os civis.”
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