Cúpula do BRICS marca o ‘Crepúsculo da Hegemonia dos EUA’ e sinaliza ‘Lançamento Oficial da Ordem Mundial Multipolar’

Na quinta-feira, chegou ao fim a 16ª Cúpula do BRICS, realizada em Kazan, Rússia. O encontro, repleto de reuniões de alto nível e discussões bilaterais, culminou em uma declaração conjunta de 134 pontos. Observadores internacionais destacaram o significado simbólico do evento para o cenário geopolítico global.

"O encontro em Kazan é, sem dúvida, um dos eventos políticos e diplomáticos mais importantes do ano, pois reuniu pela primeira vez os líderes do BRICS expandido", afirmou o professor Alexis Habiyaremye, pesquisador da Universidade de Joanesburgo. Segundo ele, o grupo emergiu como um verdadeiro motor do crescimento global, com um poder econômico inquestionavelmente superior ao dos blocos hegemônicos tradicionais. “Pode-se dizer que é o início oficial da ordem mundial multilateral e o crepúsculo da hegemonia dos EUA”, acrescentou.

A Declaração de Kazan, publicada na quarta-feira, destaca uma série de iniciativas para promover uma ordem mundial mais justa e democrática. Entre os principais temas, estão o fortalecimento da cooperação para a estabilidade e segurança global e regional, o impulso à cooperação econômica e financeira, e o incentivo às trocas entre os povos para o desenvolvimento social e econômico. A reforma do sistema de Bretton Woods e das Nações Unidas também foi abordada, assim como a expansão do uso de moedas nacionais no comércio, o fortalecimento da cooperação em tecnologia de ponta e medicina, e o apoio à proposta russa de uma plataforma de intercâmbio de grãos do BRICS.

Entre os destaques da cúpula, está a adesão de novos países, como a Turquia, cujas implicações geopolíticas são consideráveis. “A presença de Erdogan é um sinal claro de que o BRICS está moldando o futuro das relações globais”, observou Habiyaremye, mencionando a participação do presidente turco no encontro BRICS Outreach/Plus, que contou com a presença de cerca de três dezenas de líderes e altos representantes.

O grupo também sublinhou a importância de um mundo que rejeita o domínio unilateral, promovendo uma distribuição mais equilibrada de poder e responsabilidades. De acordo com Habiyaremye, estruturas internacionais ocidentais, como o mecanismo de solução de controvérsias ISDS (Investor-State Dispute Settlement), perpetuaram a exploração colonial, e as novas instituições propostas pelo BRICS podem ajudar a desmantelar esse sistema injusto. Entre as novidades, destaca-se a plataforma tecnológica do Conselho Empresarial do BRICS para o compartilhamento de tecnologia, além da exploração de novas ferramentas de resolução de disputas.

Um ponto relevante discutido foi a narrativa ocidental sobre o isolamento da Rússia. “O presidente Putin demonstrou que, apesar da propaganda ocidental, ele tem muitos aliados. Vários presidentes compareceram à Rússia”, afirmou Patrick Bond, professor de economia política da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo.

No entanto, alguns desafios persistem. Questões como a adesão de novos membros – países com disputas bilaterais, como Egito e Etiópia, que estão em desacordo sobre a segurança hídrica – ainda precisam ser resolvidas. “Foi inteligente não incluir novos membros nesta cúpula, até que as divergências sejam superadas”, disse Bond.

Outro desafio importante é a desdolarização. Embora a Rússia e o Irã já tenham reduzido sua dependência do dólar devido a sanções, outros membros, como Brasil, Índia e África do Sul, ainda possuem setores financeiros fortemente atrelados à moeda norte-americana. Bond destacou a importância de avançar nesse campo, ressaltando que o Federal Reserve dos EUA "imprime dinheiro e aumenta as taxas de juros, gerando caos econômico global".

A cúpula também discutiu reformas em instituições ocidentais como a OMC, o FMI e o Banco Mundial. Bond alertou que o contínuo apoio a essas entidades pode significar a manutenção de interconexões excessivas com a ordem dominada pelo Ocidente, ressaltando a necessidade de uma nova estrutura institucional. Ele também mencionou desafios com o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) do BRICS, que ainda realiza empréstimos em dólares, apontando para a necessidade de um consenso em torno de um fundo de reserva contingente, como uma alternativa ao FMI.

O contexto geopolítico atual, com as economias emergentes produzindo mais que as potências hegemônicas, torna o diálogo fundamental para evitar conflitos. “O Ocidente não quer ceder seu domínio sem resistência, e por isso o diálogo é crucial para garantir uma transição pacífica para a nova ordem mundial”, concluiu Habiyaremye.

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