Putin Recebe Cúpula do BRICS em Meio ao Conflito na Ucrânia

A cidade de Kazan, no sudoeste da Rússia, foi palco da 16ª cúpula anual do BRICS, em um dos maiores eventos internacionais realizados no país em anos. O encontro, que reúne líderes de mais de 20 nações, ocorre em um momento delicado, com o Kremlin envolvido na guerra contra a Ucrânia e sob sanções ocidentais.

A importância do BRICS

Fundado em 2006, o grupo BRICS é composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A aliança surgiu com o objetivo de questionar a hegemonia política e econômica das nações ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Desde então, o bloco tem se consolidado como uma força geopolítica alternativa, promovendo discussões anuais e defendendo maior autonomia para os países em desenvolvimento no cenário internacional.

Durante a cúpula de 2023, o grupo estendeu convites a Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que se tornaram membros oficiais, exceto pela Arábia Saudita, que ainda não formalizou sua adesão. Também foi oferecida a participação da Argentina, mas o novo presidente Javier Milei recusou, preferindo fortalecer laços com o Ocidente.

Participantes de destaque

Entre os líderes presentes na abertura da cúpula estavam o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa. Outros chefes de Estado que marcaram presença foram o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, o presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, e o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed. O presidente dos Emirados Árabes, Mohamed bin Zayed Al Nahyan, também compareceu. Embora tenha cancelado sua participação após um acidente em casa, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Notavelmente, o secretário-geral da ONU, António Guterres, também está na Rússia para o evento. Sua presença gerou críticas da Ucrânia, que apontou a ausência de Guterres em um encontro de paz apoiado por Kiev em junho, mas sua aceitação do convite de Vladimir Putin para a cúpula do BRICS.

Agenda da cúpula

O ponto central das discussões é a insatisfação dos membros com as instituições de governança global lideradas pelo Ocidente, particularmente no âmbito econômico. As sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia em 2022 serviram como um alerta para outras nações do Sul Global, que temem que essas ferramentas de coerção financeira possam ser usadas contra elas no futuro.

Nesse contexto, o BRICS busca reduzir sua dependência do dólar norte-americano e do sistema SWIFT, do qual os bancos russos foram excluídos após as sanções. Em 2023, Lula sugeriu a criação de uma moeda comercial comum para os membros do BRICS, embora especialistas alertem que a implementação dessa ideia enfrentaria grandes desafios. No momento, o grupo está focado no uso das moedas nacionais para o comércio bilateral, visando reduzir a volatilidade cambial e diminuir a dependência do dólar.

Embora haja ceticismo quanto à viabilidade de uma moeda comum, o movimento para aumentar a utilização das moedas nacionais nos acordos comerciais é visto como um primeiro passo rumo à independência financeira do Ocidente. A China, por exemplo, já possui um sistema alternativo ao SWIFT, ainda que seu uso seja limitado, e países como Brasil e Turquia estão fortalecendo suas reservas em ouro.

O que está em jogo para Putin

Para Vladimir Putin, o sucesso da cúpula de Kazan é crucial tanto simbolicamente quanto politicamente. Desde a invasão da Ucrânia, a Rússia tem enfrentado crescente isolamento internacional, com sanções severas vindas de países como Estados Unidos, Canadá, Japão e a União Europeia. Além disso, um mandado de prisão internacional foi emitido contra Putin pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) devido à deportação forçada de crianças ucranianas, o que limita sua mobilidade internacional.

Em 2023, Putin evitou comparecer à cúpula do BRICS na África do Sul devido à pressão sobre o governo de Pretória para detê-lo, uma vez que o país é signatário do Estatuto de Roma, que criou o TPI. No entanto, a cúpula de Kazan representa uma oportunidade para o Kremlin reafirmar que, apesar das sanções e do isolamento imposto pelo Ocidente, a Rússia ainda conta com aliados importantes, como China, Índia e outras potências emergentes.

Conforme ressaltou Angela Stent, diretora do Centro de Estudos Eurasianos, Russos e da Europa Oriental da Universidade de Georgetown, "a cúpula de Kazan demonstra que, longe de estar isolada, a Rússia mantém parcerias estratégicas com países influentes." Com a recente ampliação do BRICS, o grupo agora representa aproximadamente 45% da população mundial e 25% do PIB global.

Expansão do BRICS

O bloco continua a atrair o interesse de novos membros. Durante o Diálogo BRICS com Países em Desenvolvimento, realizado em junho de 2023, a Tailândia manifestou sua intenção de integrar o grupo, seguida pela Malásia, que também expressou interesse pouco antes da visita do premiê chinês Li Qiang ao país. Até mesmo a Turquia, membro da OTAN, solicitou formalmente sua adesão ao BRICS em setembro.

Como observou Tara Varma, especialista em política internacional, a participação de tantas nações em uma cúpula sediada por um país que, há pouco tempo, era considerado pária por violar o direito internacional, reflete uma tendência crescente de países que buscam maior autonomia e não desejam ser forçados a escolher lados em conflitos globais.

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