Em meio aos horrores da guerra e da destruição, a esperança ainda vive nos corações dos palestinos que foram forçados a deixar suas casas em Gaza. No meio dos destroços, um objeto simples, mas carregado de simbolismo, persiste: as chaves de suas casas, guardadas como um símbolo da esperança de retorno.
Após mais de um ano de bombardeios intensos e deslocamentos contínuos, os habitantes de Gaza não esquecem os lares que deixaram para trás na tentativa de proteger suas famílias. Entre as milhares de histórias, as de três mulheres que agora vivem em um campo de refugiados próximo ao Hospital Al-Aqsa, em Deir el-Balah, representam a dor e a resiliência de um povo que continua a sonhar com a volta para suas raízes.
Abeer
Abeer al-Salibi, 37 anos, vive em uma tenda no abarrotado campo de deslocados em Deir el-Balah, mas carrega consigo a chave de sua antiga casa, que hoje está em ruínas. Depois de 17 anos de trabalho duro, Abeer e seu marido construíram um lar modesto, com um pequeno jardim, em al-Karama, ao norte da Cidade de Gaza. No entanto, conseguiram aproveitar a casa por apenas três anos antes de ela ser destruída em um bombardeio em outubro do ano passado.
Desde então, a família de Abeer, incluindo seus sete filhos, foi deslocada cinco vezes, passando por diferentes regiões de Gaza, como Nuseirat, Rafah e Khan Younis, até chegar a Deir el-Balah. "Casa é vida. Sinto falta da minha rotina, de acordar meus filhos para a escola, de recebê-los de volta ao fim do dia", desabafa com um sorriso melancólico. Para ela, retornar ao local onde estava sua casa, mesmo que significasse viver em uma tenda sobre os escombros, já seria um alívio. "O importante é voltar. Vamos reconstruir, não importa como."
Wafaa
Wafaa Sharaf, de 20 anos, viu seus sonhos interrompidos apenas seis meses após o casamento, quando os ataques começaram. Com o marido, Islam, também de 20 anos, esperava ansiosamente o nascimento do primeiro filho. Eles haviam planejado tudo: Islam preparou um pequeno apartamento no andar superior da casa de sua família, em as-Saftawi, ao norte da Cidade de Gaza, onde o casal planejava criar sua nova vida juntos. “Era apenas um apartamento de 60 metros quadrados, mas para mim era o paraíso”, conta Wafaa.
Em novembro, os bombardeios obrigaram Wafaa e Islam a fugir, deixando para trás a esperança de um futuro tranquilo. "Minha alma ainda estava naquele lugar", diz Wafaa. "Mas, quando os bombardeios começaram a cair, não tivemos escolha." Em janeiro, Wafaa deu à luz sua filha Leen em um inverno rigoroso, em um dos períodos mais frios que Gaza já enfrentou. O que aconteceu com o antigo lar, ela não sabe ao certo, dependendo de relatos de terceiros. "Tudo o que eu desejo é poder voltar para minha casa. Não quero mais nada", desabafa.
Hiba
Para Hiba al-Hindawi, 29 anos e mãe de três crianças, a escolha de deixar a casa foi motivada pelo instinto de proteção. "Saí por medo, para proteger meus filhos e a mim mesma", relata. Mas ao se afastar, percebeu o quanto perdeu. "Gostaria de ter trazido coisas que tinham valor emocional, como as fotos do meu casamento e as imagens das crianças quando eram pequenas."
O conforto de ter um lar com eletricidade e comodidades básicas, como uma geladeira e uma máquina de lavar, tornou-se uma memória distante. "Às vezes, tudo o que eu queria era poder lavar as mãos em uma torneira ou usar um banheiro normal. Parece que voltamos à Idade da Pedra." O que mais deseja, contudo, é que o sofrimento acabe. "Quero que esta Nakba termine", diz com desesperança.
Desde que fugiram, o prédio onde ficava seu apartamento foi destruído por um ataque aéreo. "Chorei tanto naquele dia. Nunca imaginei que perderia meu lar para sempre. É difícil aceitar isso", diz Hiba, que, como as outras, guarda a chave do apartamento destruído. Mesmo com os meses de deslocamento, a saudade de casa só aumentou. "Casa é segurança e abrigo", reflete. "A guerra nos roubou a privacidade. Eu só queria poder fechar uma porta atrás de mim e sentir estabilidade, nem que fosse por um instante."
Para Abeer, Wafaa e Hiba, as chaves que carregam são símbolos de um passado que ainda vivem em suas lembranças e de um futuro incerto, mas desejado. Em meio à devastação, o desejo de retornar persiste, assim como o peso da esperança nas mãos e nos corações dessas mulheres.
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