Em um cenário marcado pela devastação, Israel tem sido acusado de direcionar ataques contra equipes de resgate no sul do Líbano. Na última segunda-feira, um bombardeio israelense atingiu a cidade de Baraachit, próxima a Bint Jbeil, matando dez bombeiros. Com esse episódio, o número de profissionais de emergência mortos em ataques israelenses no último ano ultrapassou cem, a maior parte nas últimas semanas.
Um membro da Defesa Civil Libanesa, que atua na região de Tebnine e pediu anonimato, expressou a dor de perder amigos em mais um ataque. "Conhecia todos eles. Apesar de não serem da mesma organização, havia coordenação entre nós", relatou. A situação levantou graves preocupações sobre a prática de atingir diretamente resgatistas, uma ação que contraria as normas do direito humanitário internacional, podendo ser considerada crime de guerra conforme as Convenções de Genebra.
Desde outubro do ano passado, pelo menos 107 profissionais de resgate foram mortos por ataques israelenses, segundo o Ministério da Saúde Pública do Líbano. A indignação pela impunidade de Israel é latente entre os libaneses, que exigem responsabilização. Israel, por sua vez, através de seus porta-vozes, nega os ataques intencionais a civis ou equipes de resgate, afirmando que suas ações miram exclusivamente "alvos terroristas do Hezbollah".
No entanto, Mahmoud Karaki, porta-voz da unidade de resgate do Comitê Islâmico de Saúde, afirma que 18 centros da organização foram atingidos diretamente nos últimos 12 meses. "Em todos os locais que foram bombardeados, não havia alvos militares próximos. O inimigo sempre encontra uma justificativa, mas é mentira", declarou Karaki, enfatizando a falta de justificativas concretas para os ataques.
Aumenta o medo entre os resgatistas
O recrudescimento da violência tem levado muitos resgatistas a questionar sua própria segurança. "Eles atingiram a Cruz Vermelha, a defesa civil e os bombeiros", desabafou o profissional de Tebnine. "Eles não têm medo de represálias", acrescentou, ressaltando o risco cada vez maior de realizar missões de socorro na região. A tensão é tanta que, ao invés de salvar vidas, os resgatistas sentem que estão se arriscando a perder as próprias.
O medo de se aproximar de áreas atingidas é real. Ahmad Baydoun, pesquisador do conflito libanês, afirmou que Israel frequentemente realiza ataques complementares após os bombardeios iniciais para impedir que socorristas cheguem aos locais. "Eles não querem que ninguém se aproxime das áreas atingidas. O objetivo é garantir que não haja sobreviventes", explicou Baydoun.
Recentemente, um vídeo viralizou mostrando um operador de escavadeira em Beirute sendo atingido por um ataque aéreo israelense. As imagens mostram o operador dentro da cabine da máquina, que é subitamente atingida por um míssil, seguido de gritos e desespero. A ação foi geolocalizada próximo ao local de um ataque que teria como alvo Hachem Safieddine, apontado como possível sucessor do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, também morto em ataques israelenses.
Crescente deslocamento e ataques a civis
Desde a intensificação dos bombardeios, iniciada em 23 de setembro, cerca de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas dentro do Líbano. O sul de Beirute e outras regiões dominadas pelo Hezbollah tornaram-se alvos constantes, levando milhares de libaneses a fugir de suas casas. O número de mortes disparou, especialmente entre civis e equipes de resgate, que antes conseguiam prestar socorro em algumas regiões.
A escalada de violência tem tornado indistinguível a segurança entre as diferentes áreas do Líbano. "Hoje, não há mais diferença. O perigo é o mesmo em qualquer lugar", afirmou Karaki. Nas últimas semanas, vilarejos como Meiss el-Jabal, no sul, foram bombardeados incessantemente, com mais de 40 ataques em apenas quatro horas. Com a maioria dos moradores fugindo, apenas idosos e enfermos permanecem, sem comunicação há dias e sem notícias de seu paradeiro.
A destruição em massa e o direcionamento de ataques a civis e trabalhadores humanitários revelam um cenário de desesperança no Líbano, onde a assistência de emergência se vê acuada entre a obrigação de socorrer e o medo constante de se tornar alvo. Entre as ruínas, resta a pergunta: até quando a ajuda humanitária será silenciada pelas bombas?
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