Vítimas de desastre ambiental no Brasil buscam indenização bilionária em Londres

Quase nove anos após o rompimento da barragem de Fundão, que devastou comunidades e causou o maior desastre ambiental da história do Brasil, as vítimas do ocorrido agora recorrem à Justiça do Reino Unido. Uma ação coletiva foi aberta na Alta Corte de Justiça em Londres, na segunda-feira, solicitando uma indenização estimada em £36 bilhões (R$ 224 bilhões) da gigante mineradora BHP. A ação pode se tornar o maior acordo ambiental da história, segundo a firma Pogust Goodhead, que representa os afetados.

A BHP é coproprietária da Samarco, empresa responsável pela operação da mina de minério de ferro, onde ocorreu o rompimento da barragem em novembro de 2015. O desastre liberou uma quantidade de rejeitos tóxicos equivalente ao necessário para encher 13 mil piscinas olímpicas no Rio Doce, no sudeste do Brasil. O processo foi aberto em Londres devido ao fato de uma das principais entidades legais da BHP estar sediada na cidade na época do acidente.

O advogado Alain Choo Choy, representando as vítimas, foi enfático em seu argumento: "A BHP é a poluidora e, por isso, deve pagar." Em contrapartida, a advogada da mineradora, Shaheed Fatima, rebateu as acusações, alegando que a BHP não era diretamente proprietária ou responsável pela operação da barragem e que a empresa tinha "conhecimento limitado" sobre sua condição estrutural.

A tragédia de 2015 causou danos irreparáveis ao Rio Doce, venerado pelo povo indígena Krenak como uma entidade sagrada. A Universidade de Ulster documentou que o desastre resultou na morte de 14 toneladas de peixes de água doce e na contaminação de 660 quilômetros de rio. A localidade de Bento Rodrigues, que outrora era um vilarejo vibrante no estado de Minas Gerais, hoje é um local deserto e assombrado pelas lembranças do ocorrido.

Monica dos Santos, de 39 anos, que perdeu sua casa e comunidade, tornou-se uma das principais vozes na luta por reparações justas. "Não é apenas a destruição do dia 5 de novembro. A destruição desde então tem sido, muitas vezes, pior", afirmou Monica, referindo-se ao impacto psicológico e emocional nos sobreviventes, muitos dos quais recorreram ao álcool ou drogas.

Enquanto o julgamento em Londres começa, a BHP e sua parceira, a Vale, estão em negociações com as autoridades brasileiras para chegar a um acordo que pode destinar R$ 198 bilhões para reparações. A Vale afirmou que o acordo incluiria R$ 41,5 bilhões já pagos, além de novas parcelas para os governos federal, de Minas Gerais, Espírito Santo e municípios afetados.

Embora as empresas estejam em conversas avançadas no Brasil, a Pogust Goodhead defendeu que essas negociações não afetam o processo no Reino Unido. Em comunicado, a firma destacou que "as empresas envolvidas no maior desastre ambiental do Brasil estão determinadas a evitar que as vítimas obtenham justiça."

Para algumas das vítimas, como Priscila Monteiro, que perdeu sua sobrinha de cinco anos e sofreu um aborto no dia do desastre, a esperança agora reside na corte britânica. "Deus colocou o pessoal de Londres em nosso caminho porque não há justiça no Brasil. Nossa última esperança está neles", desabafou Monteiro.

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