Antes da criação de Israel, a maioria dos judeus europeus rejeitava a ideia de uma nação exclusivamente judaica. Em vez disso, muitos preferiam combater o antissemitismo unindo-se a movimentos de solidariedade que integravam judeus e não judeus na luta contra a opressão. É esse espírito de resistência coletiva que o livro The Radical Jewish Tradition: Revolutionaries, Resistance Fighters and Firebrands, de Janey Stone e Donny Gluckstein, busca resgatar, apresentando a tradição de militância judaica que, ao longo de décadas, confrontou tanto regimes autocráticos quanto a segregação social e o racismo.
Em 1936, uma onda de violência antissemita tomou a cidade polonesa de Przytyk. Com uma população majoritariamente judaica, a cidade foi palco de um dos episódios mais emblemáticos de resistência da época. Em resposta aos ataques, o compositor Mordechai Gebirtig escreveu “Es Brent” (“Está Ardendo”), um hino desesperado que incitava os judeus a reagirem. O clamor de Gebirtig não ficou sem eco: grupos de autodefesa foram formados, e uma greve geral, envolvendo judeus e socialistas poloneses, foi convocada.
No entanto, a narrativa predominante sobre o povo judeu tende a enfatizar passividade e sofrimento, fortalecendo a visão de que um Estado judaico seria a única resposta ao antissemitismo. Stone e Gluckstein, por outro lado, argumentam que sempre houve alternativas ao sionismo, exemplificadas por movimentos como o Bund — uma organização socialista judaica que buscava combater a opressão “aqui e agora”, sem a necessidade de um Estado étnico exclusivo. Fundado em Vilnius em 1897, o Bund defendia a luta conjunta dos trabalhadores judeus e não judeus contra a exploração e a discriminação.
A Filosofia do “Doikayt” e a Resistência ao Sionismo
O conceito de doikayt (aqui) sintetizava a ideologia do Bund: lutar onde quer que os judeus estivessem, ao invés de migrar para uma “terra prometida” como defendiam os sionistas. Contrários à visão sionista de que o antissemitismo era uma condição imutável, os bundistas viam a solidariedade entre classes como uma arma eficaz contra o racismo e o capitalismo, acreditando que a emancipação judaica estava interligada à luta dos trabalhadores de todas as etnias e religiões.
Essa postura fez do Bund um movimento singular, que rapidamente se tornou a maior organização socialista no Império Russo antes de 1905, tendo um papel determinante na fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Seus membros influenciaram não só a luta sindical, mas também as teorias de agitação e propaganda, defendendo uma política de massas que envolvia tanto a divulgação de ideias socialistas quanto o engajamento com os problemas imediatos da classe trabalhadora.
Autonomia Cultural e Solidariedade Internacional
Para alcançar os trabalhadores judeus, que em sua maioria falavam iídiche, o Bund criou uma imprensa revolucionária no idioma. Além disso, buscou integrar diferentes grupos étnicos, promovendo solidariedade interétnica em uma época em que os patrões, frequentemente, separavam judeus e não judeus nas fábricas para enfraquecer a união dos trabalhadores. Manifestos em várias línguas foram distribuídos, estimulando a unidade sem apagar as diferenças culturais.
O Bund defendia uma “autonomia cultural nacional”, que incluía a promoção de atividades artísticas, esportivas e educacionais no iídiche, como contraponto ao tradicionalismo religioso e ao sionismo emergente. Essa política não era isenta de controvérsias, especialmente no congresso do POSDR em 1903, quando o Bund propôs ser o único representante dos trabalhadores judeus dentro do partido. A proposta foi rejeitada, não por antissemitismo, mas por uma preferência por uma estrutura partidária unificada, acreditando-se que uma federação nacionalista poderia dividir o movimento socialista.
Labor Sionismo: Uma Alternativa Paralela
Além do Bundismo, o livro de Stone e Gluckstein também explora o Sionismo Trabalhista. Essa vertente buscava combinar o ideal socialista com a criação de um Estado judaico na Palestina. Embora influente, o Sionismo Trabalhista enfrentava dificuldades para alcançar a classe trabalhadora judaica e possuía uma base de apoio majoritariamente de classe média. Focado em estabelecer comunidades agrícolas na Palestina, o movimento priorizava a imigração e o assentamento sobre a resistência direta ao nazismo, o que trouxe controvérsias.
Assim, The Radical Jewish Tradition destaca que o legado de resistência judaica foi plural, com o Bund e o Labor Sionismo oferecendo respostas distintas ao antissemitismo e à opressão. Embora hoje o sionismo tenha prevalecido como a narrativa dominante, o Bund e sua luta pela justiça social onde os judeus já viviam lembram que outras formas de emancipação judaica foram, e ainda podem ser, possíveis.
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