Eleições nos EUA: Misoginia e a Batalha de Harris contra o Culto Machista de Trump

Kamala Harris tem chances reais de vencer as eleições presidenciais americanas. Contudo, uma vitória não apagará o rastro de um fenômeno perturbador: o culto machista promovido pelo movimento "Make America Great Again" de Donald Trump, que desafia e minimiza o papel das mulheres no poder.

Trump e seus apoiadores alimentam um ideal retrógrado de masculinidade, promovendo um retorno a uma época em que homens "de verdade" controlavam seus lares e mulheres ocupavam um lugar secundário. O MAGA, com seu lema de “fazer a América grande novamente”, sugere que o país só poderá prosperar se os homens voltarem a ser duros, dominadores e implacáveis. Em vez de diálogo ou compreensão, esses valores ensinam que a violência e a supressão de emoções são sinais de poder. Figuras públicas como Joe Rogan e Elon Musk — financiador de Trump — são exaltadas como exemplos de “machos alfa” a serem seguidos, eclipsando especialistas e vozes femininas.

Com esse discurso arcaico, o MAGA tomou conta do clima eleitoral nos EUA. Trump, que já protagonizou episódios de insulto e escárnio contra mulheres em suas redes e em comícios, mantém um histórico de comentários ofensivos sobre a aparência e escolhas pessoais de mulheres que o criticam publicamente. Desde a década de 1970, ao menos 26 mulheres o acusaram de má conduta e agressão sexual, inclusive estupro e voyeurismo. Embora negue as acusações, foi condenado em um caso civil recente e obrigado a pagar uma indenização de US$ 5 milhões (aproximadamente R$ 26 milhões). Agressões à parte, a estratégia do ex-presidente é clara: perpetuar a ideia de que mulheres devem permanecer em segundo plano.

No entanto, enquanto Trump reforça essas narrativas, Harris também enfrenta ataques que pouco têm a ver com suas propostas. Em vez disso, sua vida pessoal é alvo de especulação e difamação. Nas redes sociais, críticos a acusam de ter “subido na carreira” através de relacionamentos com homens poderosos. Entre as insinuações, há rumores sobre sua sexualidade e até sobre sua “falta de compromisso” com o país por não ter filhos biológicos. Mesmo seu pertencimento racial é questionado — ora por ser “não suficientemente negra”, ora “não suficientemente asiática”. Esse discurso apenas reforça a resistência à ideia de uma mulher na presidência dos Estados Unidos.

Apesar desse cenário tóxico, as pesquisas mostram uma disputa acirrada. Trump mantém uma vantagem entre homens, com 52% de apoio entre eles contra 43% de Harris, segundo dados da Economist/YouGov. No entanto, mulheres, especialmente as mais jovens, têm se mostrado decisivas no apoio à vice-presidente. Uma pesquisa do Instituto de Política de Harvard aponta que Harris lidera com ampla vantagem entre as eleitores de 18 a 29 anos, enquanto nos estados decisivos como Arizona e Michigan, jovens já votaram em massa para garantir sua vitória.

Se eleita, Harris quebrará um paradigma ao ser a primeira mulher presidente dos EUA, mas a persistência de um sexismo agressivo não desaparecerá de imediato. Tal como a eleição de Barack Obama em 2008 não significou o fim do racismo, a ascensão de Harris não extinguirá a misoginia. A candidata, contudo, enfrenta críticas por não representar o feminismo com o mesmo vigor que o movimento esperava. Seu apoio a políticas que abraçam a diversidade de gênero e sua defesa pela descriminalização da prostituição a afastam de uma postura feminista tradicional. Para os críticos, suas concessões demonstram que, até para uma mulher de poder, ser radicalmente feminista ainda é uma barreira nos Estados Unidos.

Ao final, a eleição de Harris pode confirmar que há espaço para uma mulher no Salão Oval, mas não elimina o peso da misoginia que permeia a sociedade americana. Esta campanha mostrou que mulheres continuam sujeitas ao escrutínio público, não por suas propostas, mas por sua mera presença em posições de poder. Este ciclo eleitoral evidencia que, para muitas americanas, os valores conservadores de Trump são uma ameaça direta aos seus direitos e que, apesar de ainda existir resistência, o caminho para o topo está, gradualmente, se abrindo.

Comentários