Em 2 de novembro de 1920, Mose Norman, eleitor registrado e negro, chegou ao local de votação na cidade de Ocoee, Flórida, pronto para votar no candidato presidencial Warren G. Harding. No entanto, ao tentar exercer seu direito, Norman foi impedido pelos funcionários brancos da mesa eleitoral, que alegaram que ele não havia pago os impostos eleitorais. Seu nome, assim como de centenas de outros eleitores negros, havia sido retirado das listas de votantes por funcionários brancos.
A justificativa dada aos eleitores negros era que apenas o tabelião poderia verificar os registros, mas ele estava fora da cidade. Quando Norman e os outros eleitores protestaram, foram brutalmente expulsos do local pelos trabalhadores da mesa eleitoral.
A tensão racial escalou ao longo do dia, e a situação culminou em um linchamento, tornando Ocoee palco de um dos episódios mais violentos da história eleitoral dos Estados Unidos. Conhecido como o maior ato de violência no Dia da Eleição, o massacre em Ocoee permanece como um sombrio lembrete dos obstáculos raciais enfrentados pelos eleitores negros, que tentavam exercer o direito de votar, um direito fundamental.
Apesar da Lei dos Direitos de Voto de 1965 ter proibido práticas racistas como os testes de alfabetização e impostos eleitorais para barrar os negros do processo eleitoral, essa legislação chegou tarde demais para os habitantes negros de Ocoee. Naquele dia, a maioria dos negros de Ocoee perdeu suas casas, e até 60 vidas foram ceifadas.
“A noite em que o diabo se soltou”
A violência em Ocoee não foi uma surpresa. Antes das eleições, o Ku Klux Klan, grupo supremacista branco, havia intensificado suas tentativas de intimidação, tanto contra eleitores negros quanto aliados republicanos. Em um exemplo, o grande mestre do Klan na Flórida enviou uma carta ao político republicano William R. O’Neal, que buscava o apoio dos eleitores negros em sua candidatura ao Senado dos EUA, ameaçando-o caso ele continuasse a “explicar aos negros de Orlando como se tornar cidadãos e exercer seus direitos”. A carta concluía com a ameaça de que a supremacia branca deveria ser preservada a todo custo.
A célula local do Klan em Ocoee também emitiu uma ameaça direta: caso qualquer negro tentasse votar, “haveria problemas graves”.
Após ser impedido de votar em dois locais de votação diferentes, Norman tentou se refugiar na casa de seu amigo, o empresário e líder comunitário negro July Perry. Perry, conhecido por pagar os impostos eleitorais de eleitores negros que não podiam pagar, se tornou o alvo da fúria da multidão branca. Quando os Klanmen chegaram à sua casa, uma troca de tiros ocorreu, resultando em vários feridos e dois mortos. A multidão, enfurecida, incendiou a casa de Perry.
Norman conseguiu escapar, mas Perry, sua esposa e sua filha de 19 anos foram presos. Enquanto as mulheres foram levadas para a cadeia em uma cidade vizinha, Perry foi levado para o presídio de Orange County, onde logo seria retirado por uma turba, espancado e linchado.
Após o linchamento, a multidão se voltou para a comunidade negra de Ocoee, destruindo casas, igrejas e comércios. Um sobrevivente recordou, décadas depois, que aquela foi “a noite em que o diabo se soltou em Ocoee”.
Após o massacre, mais de 200 negros fugiram da cidade, nunca mais retornando. Dos 255 negros registrados no censo de 1920, apenas dois permaneceram.
A Resposta Federal
Após o massacre, a NAACP (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor) conduziu uma investigação sobre o que aconteceu em Ocoee. Os resultados foram apresentados à Comissão de Censo da Câmara dos Representantes dos EUA, em dezembro de 1920, como parte de uma audiência sobre a violência e a supressão do voto negro.
O investigador da NAACP, Walter White, escreveu em seu relatório: “Quando visitei Ocoee, a última família negra estava deixando a cidade, com suas posses empilhadas em um caminhão, e crianças negras em cima dele. Crianças brancas estavam ao redor, zombando e ameaçando com incêndios caso não saíssem rapidamente”.
No entanto, o Departamento de Justiça dos EUA, em sua própria investigação, concluiu que “não houve tentativa de intimidar qualquer negro no exercício de seu voto” e que “não havia interferência com a votação de negros qualificados”. A grande juria da Flórida também não encontrou evidências que ligassem qualquer pessoa ou grupo aos assassinatos ocorridos em 2 de novembro de 1920.
July Perry, que era um líder comunitário, diácono e defensor dos direitos de voto, não era um radical. Ele acreditava que o direito de votar era fundamental para ser tão americano quanto seus vizinhos brancos. No entanto, por exercer esse direito, ele foi linchado, e seu corpo foi pendurado em um poste de luz.
Para os descendentes de July Perry, a história violenta do voto negro não pode ser ignorada, especialmente enquanto desafios legais à Lei dos Direitos de Voto seguem nos tribunais e as exigências de identificação do eleitor se tornam mais rigorosas.
Para os eleitores negros, o passado nunca está realmente no passado.
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