A Ameaça Nuclear e a Fragilidade da Segurança Humana

“A relação entre armas nucleares e segurança humana é semelhante à relação entre desigualdades econômicas e justiça social: se você tem o primeiro, o segundo se torna quase inalcançável.” Assim afirmaram Jacqueline Cabasso e Ray Acheson, sintetizando um dos maiores desafios globais da atualidade.

Para a maior parte da população mundial, o impacto mais significativo da existência de arsenais nucleares é a constante vulnerabilidade à morte instantânea e dolorosa. O psicólogo Robert Jay Lifton resumiu bem: “O fato existencial central da era nuclear é a vulnerabilidade”. Essa realidade se tornou ainda mais evidente nos últimos anos, com ameaças de líderes como Dmitry Medvedev, na Rússia, e Amihai Eliyahu, em Israel, de usar armas nucleares contra populações civis na Ucrânia e em Gaza, respectivamente.

O Uso Velado das Armas Nucleares

As ameaças recentes demonstram que o verdadeiro "uso" das armas nucleares é a intimidação. Esses arsenais tornam-se ferramentas de coibição, não apenas contra adversários diretos, mas também contra qualquer nação ou grupo que considere intervir. Como observou o historiador britânico E.P. Thompson: “Nunca foi verdade que a guerra nuclear seja impensável. Ela é pensada e planejada”.

Daniel Ellsberg, em seu livro The Doomsday Machine, documentou 25 episódios em que presidentes norte-americanos usaram a mera existência de suas armas nucleares para forçar outros governos a tomar medidas contra a própria vontade. “Apontar uma arma para a cabeça de alguém é um uso, mesmo que o gatilho não seja puxado”, argumenta Ellsberg.

Apesar das justificativas de dissuasão, os beneficiários não são as pessoas comuns. Quando o Tribunal Mundial analisou a legalidade das armas nucleares na década de 1990, a Índia, antes de se tornar um estado nuclear, descreveu essa prática como “aborrecida ao sentimento humano”, pois implica sacrificar vidas civis em nome da existência do Estado.

Segurança Nacional ou Poder Estatal?

O conceito de "segurança nacional" é frequentemente invocado para justificar arsenais nucleares, mas essa noção indefinida serve mais aos interesses do Estado do que aos de sua população. Decisões sobre o desenvolvimento, armazenamento e possível uso dessas armas são tomadas sem consulta popular, beneficiando elites militares e técnicas. Em qualquer sociedade que aspire à transparência e à democracia, os valores fundamentais são minados pela existência de tais arsenais.

O Impacto Socioeconômico

A ideia de segurança humana, conforme o Relatório de Desenvolvimento Humano de 1994, preconiza duas liberdades: "livre do medo" e "livre da miséria". Investimentos em armamentos, incluindo tecnologias nucleares, prejudicam diretamente a realização dessas liberdades. Em 2023, os nove estados com armas nucleares gastaram mais de 91 bilhões de dólares (cerca de R$ 455 bilhões) nesses arsenais, segundo a Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares. Os Estados Unidos lideraram o ranking, com mais de 51 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 255 bilhões). A previsão é que o gasto norte-americano atinja 756 bilhões de dólares (cerca de R$ 3,78 trilhões) na próxima década.

Enquanto isso, necessidades humanas básicas permanecem desatendidas. O custo estimado pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU para erradicar a fome global até 2030 é de 40 bilhões de dólares – menos da metade da média anual projetada para os gastos nucleares dos EUA.

Um Futuro Assombrado

Armas nucleares não existem em isolamento. Países que as possuem também mantêm exércitos inchados e se envolvem em guerras que causam destruição generalizada. Em 2023, o mundo gastou 2,44 trilhões de dólares (cerca de R$ 12,2 trilhões) em despesas militares, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. Destes, seis dos dez maiores orçamentos pertencem a estados nucleares.

Esses gastos também fomentam avanços tecnológicos usados em conflitos. Sistemas de inteligência artificial, como os utilizados por Israel em Gaza, exemplificam como a tecnologia é aplicada à guerra, muitas vezes com financiamentos bilionários. Tal foco em destruição contrasta com a ausência de esforços para promover liberdade e bem-estar coletivo.

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