O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, enfrenta pressão política crescente e pedidos de renúncia após a inesperada saída de sua ministra das Finanças, Chrystia Freeland. A crise foi desencadeada pela ameaça do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de 25% sobre produtos canadenses, provocando uma escalada na tensão entre os dois países vizinhos.
Tarifa e ruptura
No final de novembro, Trump declarou que imporia tarifas “até que o Canadá e o México controlassem o fluxo de drogas e migração” em suas fronteiras. Em resposta, Trudeau buscou adotar uma postura de unidade nacional e reforçar a importância dos laços comerciais entre os dois países, que movimentaram cerca de R$13 bilhões em bens e serviços diários em 2023. No entanto, o discurso do premiê não foi suficiente para conter as críticas internas.
Chrystia Freeland, uma das principais aliadas de Trudeau, surpreendeu o país ao anunciar sua demissão, citando divergências quanto à estratégia para lidar com a política de protecionismo agressivo prometida por Trump. Em carta dura, ela destacou que o governo deveria “preservar recursos financeiros” em preparação para uma eventual guerra comercial.
“Precisamos levar essa ameaça a sério e evitar gastos políticos que prejudiquem a confiança dos canadenses em nossa capacidade de enfrentar o momento”, escreveu Freeland.
O colapso da base de apoio
A renúncia de Freeland expôs fissuras profundas no governo liberal, já desgastado por divisões internas e pelo crescente descontentamento popular. O líder conservador, Pierre Poilievre, não perdeu tempo e declarou que “tudo está fora de controle”, acusando Trudeau de fraqueza diante da iminente crise comercial.
“Nós não podemos aceitar tamanho caos e divisão enquanto enfrentamos um ataque à nossa economia”, afirmou Poilievre.
Trudeau também perdeu o apoio formal do Partido Democrata Novo (NDP) em setembro, quando o líder Jagmeet Singh rompeu o acordo que sustentava a minoria liberal no Parlamento. Singh intensificou os ataques nesta semana, exigindo a saída do premiê: “Os liberais estão ocupados brigando entre si em vez de lutar pelos canadenses”.
Fadiga e futuro político
Com as eleições federais previstas para 2025, Trudeau enfrenta um desafio monumental. Uma pesquisa recente apontou que 70% dos canadenses estão insatisfeitos com seu governo, enquanto os conservadores lideram as intenções de voto com 42%, contra 26% dos liberais.
Laura Stephenson, professora de ciências políticas da Universidade Western, resumiu o cenário: “Há um desejo claro de mudança, e a confiança de que o governo atual pode trazer essa mudança é muito baixa”.
O desgaste de Trudeau é agravado pelo aumento do custo de vida, pela crise imobiliária e por uma política cada vez mais polarizada. Paralelamente, o avanço de discursos de direita — impulsionados por figuras como Poilievre — reflete a ascensão global de movimentos populistas.
Relações EUA-Canadá em xeque
Apesar de sua experiência durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021), Trudeau agora se depara com um cenário político mais agressivo e menos conciliatório. Analistas alertam que a próxima administração de Trump deve ser mais radical, com uma equipe alinhada à ideologia “MAGA”.
O encontro recente entre Trudeau e Trump, realizado em Mar-a-Lago, foi visto como um esforço desesperado do premiê para conter as ameaças tarifárias. Contudo, figuras próximas a Trump, como o bilionário Elon Musk, seguiram atacando Trudeau publicamente, refletindo a percepção de fragilidade política do canadense.
Enquanto isso, Poilievre capitaliza o momento, prometendo adotar uma postura mais combativa contra os EUA. “Nós vamos lutar fogo com fogo”, declarou o líder conservador.
Um premiê sob cerco
A saída de Freeland, somada às divisões no Parlamento e à pressão dos conservadores, coloca o futuro de Trudeau em xeque. Sua liderança, que já dura quase uma década, é cada vez mais contestada por eleitores que, em meio às crises econômica e política, clamam por mudança.
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