Na cozinha comunitária de Deir el-Balah, em Gaza, Ghada al-Kafarna enfrenta diariamente uma batalha para alimentar sua família. Às 11h da manhã, a mãe de dez filhos já estava na fila há mais de duas horas. Sem renda e com um marido incapacitado por uma doença crônica, a sobrevivência de sua família depende das refeições gratuitas fornecidas por organizações de caridade. “Quando essas cozinhas fecham, sou obrigada a implorar por comida aos vizinhos”, relata.
A situação se agravou nos últimos quatro dias, com as cozinhas fechadas devido à escassez. Ghada descreve noites em que seus filhos dormiram com fome. Emocionada, confessa que a pressão constante a levou a descontar em seus filhos. “Bati no meu filho de oito anos porque ele chorava de fome”, admite, em lágrimas. O bloqueio total imposto por Israel em outubro de 2023 restringiu severamente a entrada de alimentos em Gaza, afetando mais de dois milhões de pessoas, segundo a ONU.
Cozinhas comunitárias: última esperança para muitos
Para Mohammed Abu Rami, de 58 anos, as cozinhas comunitárias também são um salva-vidas. Deslocado de Gaza City, ele vive em um acampamento temporário e passa horas diárias na fila por alimentos. “Sem essas refeições, não sobreviveríamos”, diz, segurando um recipiente de plástico. “Semana passada, ficamos dias sem comer quando as distribuições foram suspensas”, acrescenta.
Mohammed descreve um cotidiano de privações. “Vivemos abaixo da linha da pobreza – sem trabalho, dinheiro ou remédios”. Ele denuncia a situação como uma forma deliberada de fome, “uma guerra dentro da guerra”, enquanto tenta manter a esperança. “Não imaginava enfrentar dias tão insuportáveis”, lamenta.
Pão: bem essencial e inatingível
Karima al-Batsh, de 39 anos, espera em filas intermináveis para comprar pão. Viúva e mãe de quatro filhos, ela foi deslocada após um ataque aéreo que matou seu marido. “Cheguei às cinco da manhã e já havia centenas de pessoas”, relata. A escassez de farinha fez do pão um artigo raro, resultando em caos e disputas nas filas.
O desespero levou às mortes de três mulheres em um tumulto recente em Deir el-Balah. “É inimaginável que o mundo permita que pessoas morram por um pedaço de pão”, lamenta Karima.
O custo insustentável da subsistência
Mohammed Dardouna, de 42 anos, descreve a rotina de luta pela sobrevivência em Gaza. “Acordo às cinco da manhã para buscar água, depois procuro comida nas cozinhas comunitárias e enfrento filas para conseguir pão”, detalha. O aumento do preço de uma saca de 25 quilos de farinha para mais de 1.000 shekels (cerca de R$ 1.300) torna inviável sua aquisição.
“Já enfrentamos os horrores da guerra, mas a fome é algo insuportável”, diz, enquanto expressa seu temor pelo futuro. “Se isso continuar, preferiremos a morte. Estamos sendo levados ao limite.”
Comida estragada como última alternativa
Fadia Wadi, de 44 anos, recorre a farinha infestada de insetos para alimentar seus filhos. Viúva e mãe de nove, ela se vê obrigada a cozinhar com o que tem, mesmo colocando em risco a saúde de sua família. “Usávamos essa farinha para alimentar animais. Agora, damos aos nossos filhos”, conta. Para ela, enfrentar filas nas padarias representa não apenas humilhação, mas perigo físico.
Preços exorbitantes em um cenário de desespero
Alaa al-Batniji, de 38 anos, enfrenta a inflação para comprar vegetais. “Duas cebolas custam seis shekels cada (cerca de R$ 8)”, conta, comparando os valores com preços de grandes metópoles. Para ele, itens básicos, como sal e cebolas, tornaram-se luxos inacessíveis. “Nunca imaginei viver tamanha inflação e escassez”, reflete.
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