Nos últimos anos, tornou-se evidente que a desigualdade econômica global atingiu níveis alarmantes, uma realidade que poucos compreendem em sua total extensão. No novo livro Mastering the Universe: The Obscene Wealth of the Ruling Class, What They Do with Their Money, and Why You Should Hate Them Even More, o economista Rob Larson, colaborador da revista Jacobin, detalha as cifras e as implicações de uma concentração de riqueza que desafia a própria lógica da justiça social.
Segundo a pesquisa da World Inequality Database (WID), em 2021, o 1% mais rico da população nos Estados Unidos possuía 34,9% da riqueza nacional; globalmente, essa porcentagem salta para 40,5%. Em todos os países analisados, uma em cada cem famílias detém cerca de um terço da riqueza, enquanto a metade mais pobre da população detém, em média, entre 3% e -3%, ou seja, praticamente nada.
Essa disparidade se intensificou ao longo do tempo: entre 1980 e 2017, o 1% mais abastado ficou com 27% do crescimento da riqueza per capita mundial. E esse crescimento, longe de ser um indicativo de prosperidade compartilhada, revelou-se um motor para o aumento da desigualdade. É um paradoxo que muitos defendem como solução para a pobreza: o crescimento econômico. No entanto, a realidade é que, enquanto os mais ricos multiplicam suas fortunas, os benefícios dessa expansão são, na prática, inacessíveis para as classes mais baixas.
Larson também destaca a interligação entre os 1% mais ricos e o setor corporativo. As grandes corporações, muitas vezes vistas como entidades que operam à parte da sociedade, são, na verdade, altamente responsivas aos interesses de seus acionistas — os grandes detentores de capital. Em 2016, 40% das ações corporativas estavam em mãos do 1% mais rico, e 84% no poder dos 10% mais ricos. Esses lucros, frequentemente, não chegam ao restante da população; em vez disso, são distribuídos em forma de dividendos ou recompras de ações, que alimentam um ciclo de acúmulo de riqueza nas mãos de poucos.
A questão da liberdade, comumente atribuída à economia de mercado, também é discutida no livro. Os defensores do capitalismo argumentam que ele garante liberdade negativa, isto é, a ausência de interferência do Estado. Entretanto, Larson apresenta uma visão crítica: os trabalhadores, embora possam ter mais opções de carreira do que em sistemas feudalistas ou totalitários, são subjugados à poderosa elite econômica. Quando uma empresa decide transferir sua produção para outro país ou exige que um funcionário mude de cidade, a coerção está claramente presente, evidenciando que a liberdade é, na verdade, uma ilusão para muitos.
Larson explora, ainda, os excessos e a cultura de ostentação dos ultra-ricos, que compram obras de arte para guardá-las em depósitos privados, longe do olhar público. Um exemplo é o quadro Garçon à la pipe, de Picasso, comprado por US$ 104 milhões em um leilão de 2004 e desaparecido das vistas do público. Essas aquisições não apenas perpetuam a desigualdade, mas revelam um desprezo pela cultura e pelo bem comum.
A “segregação de classes” é outro conceito abordado, referindo-se à separação física entre os ricos e os pobres, evidenciada pela exclusão de áreas urbanas e pela disparidade nas condições de moradia. A diferença nos preços de imóveis cria um processo de triagem de mercado, onde as classes sociais são segregadas e o conhecimento sobre as realidades do outro lado se torna quase impossível.
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