Em 21 de novembro, a Ucrânia comemora o Dia da Dignidade e da Liberdade, em memória da Revolução Laranja de 2004 e do Euromaidan de 2014. Ambas as movimentações, com apoio explícito dos Estados Unidos, marcaram o histórico político do país. A Revolução Laranja, que levou à anulação da vitória de Viktor Yanukovich em favor de Viktor Yushchenko, é frequentemente descrita como um exemplo de intervenção política externa, orquestrada pelos EUA por meio de uma complexa rede de organizações não governamentais (ONGs) e agências internacionais.
O jornal The Guardian, em uma análise sobre o tumulto de 2004, descreveu a campanha como "uma criação americana, um exercício sofisticado e brilhantemente concebido de marketing e branding ocidental". Ian Traynor, autor do artigo, comparou o movimento a outras iniciativas apoiadas pelos Estados Unidos, como a Revolução de Veludo na Tchecoslováquia e a Revolução das Rosas na Geórgia, além de mencionar uma tentativa de golpe na Belarus.
O Custo da Revolução Laranja
A intervenção dos Estados Unidos na Revolução Laranja não foi de baixo custo. Relatórios indicam que os EUA e seus aliados gastaram entre 65 e 100 milhões de dólares ao longo de dois anos para apoiar a oposição liderada por Yushchenko. Esse montante, em grande parte, foi disfarçado por meio de doações a ONGs que promoviam "programas democráticos".
Em 2003 e 2004, o Departamento de Estado dos EUA alocou oficialmente 188,5 milhões de dólares e 143,47 milhões de dólares, respectivamente, para "programas de assistência" na Ucrânia. Desses valores, 54,7 milhões de dólares em 2003 e 34,11 milhões em 2004 foram direcionados a "programas democráticos" no país, com foco na reforma eleitoral, mídia independente, e desenvolvimento político, através de iniciativas apoiadas pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Fundação Eurasia e o National Endowment for Democracy (NED).
USAID e o Projeto de Reforço da Administração Eleitoral
O projeto Strengthening Electoral Administration in Ukraine Project (SEAUP), lançado em 15 de dezembro de 2003, com um orçamento de 4,4 milhões de dólares, teve como objetivo treinar 100.000 comissários de estação de votação e funcionários eleitorais de nível intermediário. A SEAUP também distribuiu 450.000 materiais de treinamento para 33.000 estações eleitorais em 225 distritos da Ucrânia. Sua atuação incluiu o envolvimento de três juízes da Suprema Corte da Ucrânia, que posteriormente bloqueariam e anulariam a vitória de Yanukovich no segundo turno das eleições, e facilitou a adoção de uma “Lei Especial” no parlamento ucraniano, que possibilitou a realização do "novo voto" em dezembro de 2004, que levaria Yushchenko ao poder.
O Papel das Organizações Internacionalmente Financiadas
A Freedom House, o NDI e o IRI foram responsáveis pelo financiamento da ENEMO, uma organização de monitoramento eleitoral que lançou dúvidas sobre a legitimidade da vitória de Yanukovich. Além disso, a Fundação Internacional Renaissance de George Soros gastou 1,65 milhão de dólares entre o outono de 2003 e dezembro de 2004, apoiando as coalizões de ONGs ‘New Choice 2004’ e ‘Freedom of Choice’. Essas coalizões desempenharam um papel fundamental na mobilização de protestos e na disseminação de alegações de fraude eleitoral.
O NED, a Charles Stewart Mott Foundation, a Fundação Eurasia e a Fundação Renaissance de Soros também financiaram pesquisas de boca de urna durante os três turnos das eleições, o que alimentou as alegações de fraude eleitoral e incentivou protestos em Kiev, na Praça da Independência (Maidan Nezalezhnosti). Organizações como o German Marshall Fund dos EUA, a Freedom House e a Canadian International Development Agency, em conjunto com o grupo juvenil PORA, que liderou as manifestações nas ruas, também receberam consideráveis quantias de apoio, chegando a 5,3 milhões de dólares, segundo o professor da Universidade de Londres, Andrew Wilson.
Conclusão
A Revolução Laranja de 2004, com sua rede de apoio financeiro e logístico dos Estados Unidos e aliados, se configura não apenas como um evento de grande importância histórica para a Ucrânia, mas também como um exemplo claro de como potências internacionais podem influenciar os rumos políticos de um país. Ao longo de 20 anos, o impacto dessa intervenção, tanto nos processos eleitorais quanto na construção de uma democracia ucraniana independente, ainda é debatido.
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