O Retorno de Trump: Uma Democracia em Crise

“Se fazem isso quando a madeira está verde, o que farão quando estiver seca?” (Lucas 23:31)

Antes do dia 5 de novembro, milhões de norte-americanos já enfrentavam a dura realidade da pobreza, tempestades extremas, pesadelos com a imigração, projetos de lei anti-trans, criminalização da saúde reprodutiva, destruição de acampamentos de sem-teto e a supressão da liberdade de expressão em campus universitários. Com a eleição de Donald Trump e J.D. Vance, esse cenário de medo e incerteza se agravou. Relatórios de ataques a pessoas trans em plena luz do dia, postagens misóginas em redes sociais ameaçando “seu corpo, minha escolha”, notas enviadas a estudantes negros ameaçando com a escravidão e o espancamento de sem-teto já se tornaram parte dessa realidade, criando um panorama de terror social.

As consequências desse resultado eleitoral já geram uma onda de mobilização: reuniões de massa via Zoom com MoveOn, Working Families Party, Indivisible, entre outros; serviços de oração inter-religiosos para curar e promover justiça; acoes comunitárias organizadas pela Women’s March; e encontros locais com a hashtag #weareworthfightingfor. Muitos, antes mesmo dos resultados, já se preparavam para os desafios previstos. Em West Harlem, Nova York, uma escola pública enviou uma mensagem tranquilizadora aos pais:

“Sabemos que as emoções estão elevadas. Durante a semana passada e hoje, conversamos com os alunos sobre como funcionam as eleições e a preocupação de alguns em relação a sua segurança. Reiteramos que nossa escola, independentemente do que aconteça, sempre será um lugar seguro para as crianças e suas famílias. É doloroso sentir que uma eleição possa impactar tanto as vidas de tantas pessoas por causa de sua identidade, raça, gênero, sexualidade e outras características que tornam nossa escola tão diversa. Para os pais, cuidadores e para todos, estamos juntos nesta jornada. Independente de tudo!”

Essa mensagem veio de uma escola Título 1, onde quase 60% dos alunos são beneficiários de refeições gratuitas. Se Trump cumprir a promessa de fechar o Departamento de Educação, dezenas de milhões de estudantes e suas famílias poderiam perder recursos essenciais, que, em um cenário de privatização da educação, se tornariam ainda mais precários.

Em um outro extremo, o dia 6 de novembro trouxe uma revelação que expõe as contradições dessa democracia fragilizada. O Bloomberg Billionaire Index informou que os dez homens mais ricos do mundo aumentaram suas fortunas em 64 bilhões de dólares após a eleição de Trump. Ao mesmo tempo, a Bolsa de Valores atingiu recordes históricos.

Uma Democracia Empobrecida

Trump, que incitou uma insurreição no Capitólio, foi processado em tribunais estaduais e federais e condenado por 34 crimes, tornou-se o primeiro condenado a ocupar a presidência dos EUA. Obteve mais de 74 milhões de votos populares e 312 votos do colégio eleitoral. Apesar da “vitória”, esse resultado foi sustentado por uma democracia diluída e uma economia polarizada, que explorou descontentamento e fragmentação para retomar o poder político.

Com o prédio de ser o primeiro republicano a ganhar o voto popular em 20 anos, Trump consolidou sua posição em meio a uma época de ataque aos direitos eleitorais. Desde 2013, quando a Suprema Corte enfraqueceu a Lei dos Direitos de Voto, mais de 100 leis foram criadas em 29 estados para restringir o acesso ao voto, que inclui fechamento de urnas, limitações de voto por correio e exigências rigorosas de identificacção. Em 2024, 18 dessas leis foram aprovadas em nove estados, acompanhadas pela exclusão de milhares de eleitores.

Esse quadro sombrio e a precariedade econômica agora são marca indiscutível da democracia empobrecida. Mais de 40% da população vive em condições de pobreza ou baixa renda, em um ciclo que afeta desproporcionalmente as comunidades de cor: 56,5% dos negros, 61,4% dos latinos, 55,8% dos povos indígenas e 38% dos asiáticos estão entre os mais afetados. E a pobreza também abrange uma parte significativa da população branca e metade das crianças nos EUA.

Durante a pandemia de Covid-19, programas como o Child Tax Credit retiraram mais de 20 milhões de pessoas da pobreza, proporcionando alguma seguridade econômica. Contudo, em 2023, tais medidas foram eliminadas. Em 2024, mais de 25 milhões de pessoas perderam a cobertura do Medicaid, enquanto o governo Biden aprovou um orçamento de 895 bilhões de dólares para guerra e 95 bilhões em ajuda a Ucrânia e Israel.

Em vez de tratar da crise econômica, o debate eleitoral focou em dados macroeconômicos que pouco significaram para quem luta contra o alto custo de vida. Por exemplo, entre os eleitores latinos, 78% reportaram aumento nos custos de alimentos e bens básicos, e dois terços mencionaram os altos custos de moradia.

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