Pesquisas financiadas pela UE continuam em Israel apesar da guerra em Gaza

Instituições israelenses, algumas ligadas ao setor militar, receberam mais de 250 milhões de dólares (cerca de R$ 1,25 bilhão) desde o início da guerra em Gaza, em 7 de outubro. Nesse dia, após uma incursão do Hamas no sul de Israel, o país lançou um contra-ataque que desencadeou a violenta escalada no território palestino.

A posição da União Europeia (UE) foi imediata e contundente. “Israel tem o direito de se defender, hoje e nos próximos dias”, declarou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, nas redes sociais, acompanhada de uma imagem da sede da comissão iluminada com a bandeira israelense. Desde então, a UE segue mantendo laços estreitos com Israel através do programa de pesquisa e inovação Horizon Europe, mesmo com crescentes acusações de violação dos direitos humanos no conflito.

Paradoxos no financiamento europeu

Dados da própria Comissão Europeia, analisados pela Al Jazeera, revelam que, desde o início da guerra, instituições israelenses receberam mais de 238 milhões de euros (aproximadamente R$ 1,34 bilhão). Entre os beneficiários está a Israel Aerospace Industries (IAI), maior fabricante de aviação e aeroespacial do país, que recebeu 640 mil euros (cerca de R$ 3,6 milhões). Embora as diretrizes do Horizon Europe estipulem que os projetos financiados tenham aplicações exclusivamente civis, tecnologias de uso dual — tanto civil quanto militar — também são contempladas, desde que declaradas como voltadas às necessidades civis.

Essa permissividade tem gerado protestos. Em julho, com o conflito já acumulando cerca de 40 mil mortes em Gaza, mais de 2 mil acadêmicos europeus e 45 organizações pediram a suspensão de financiamentos a Israel, argumentando que o programa Horizon contribui para o avanço da tecnologia militar israelense. Em petição, afirmaram que tais projetos transferem conhecimento direto para a indústria de defesa de Israel, ampliando suas capacidades de armamento. Contudo, a UE não respondeu ao apelo.

Ligações militares e acadêmicas

O apoio europeu ao setor acadêmico israelense é um dos pilares do financiamento. Universidades como a Hebrew University e o Technion – Israel Institute of Technology são consideradas fundamentais para o desenvolvimento da indústria militar do país desde suas criações, ainda no período pré-1948. Essas instituições lideraram projetos que resultaram na criação de gigantes da indústria de defesa, como a IAI e a estatal Rafael.

Sob o programa Horizon 2020, que antecedeu o Horizon Europe entre 2014 e 2020, empresas como a Elbit Systems, principal fornecedora do Ministério da Defesa de Israel, receberam 2,2 milhões de euros (cerca de R$ 12,4 milhões). Apesar de os projetos terem temáticas declaradamente civis, como controle de desastres e segurança marítima, não há mecanismos que impeçam o uso posterior ou paralelo das tecnologias no setor militar.

Entre os exemplos de aplicações controversas estão tecnologias de inteligência artificial (IA), como o sistema Lavender, usado pelo exército israelense para criar listas de alvos com base em análise de dados de vigilância. Outras ferramentas, como Where’s Daddy?, rastreiam indivíduos e enviam alertas sobre suas localizações. A Human Rights Watch alertou que esses instrumentos podem violar o direito humanitário internacional, enquanto a ONU destacou o impacto devastador de tais tecnologias sobre civis.

Transparência sob questionamento

A falta de transparência no financiamento também gera preocupação. Um pedido de informações feito pela Al Jazeera para obter detalhes das avaliações éticas dos projetos foi negado pela Comissão Europeia, sob o argumento de que isso comprometeria seus processos internos de decisão.

O financiamento a instituições israelenses segue como um tema divisivo dentro da UE, expondo o dilema entre manter relações estratégicas e respeitar seus próprios valores de defesa dos direitos humanos. Até o momento, não há indícios de que a UE pretenda revisar sua política de financiamento, mesmo diante das graves acusações relacionadas ao conflito em Gaza.

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