Trump Ameaça Tarifas de 100% aos BRICS em Disputa sobre Hegemonia do Dólar

Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos e presidente eleito para um novo mandato, ameaçou impor tarifas de 100% sobre importações provenientes dos países membros do bloco BRICS. A medida seria uma retaliação à possível criação de uma moeda própria do grupo ou ao suporte à adoção de outra moeda em substituição ao dólar americano no comércio internacional.

Em postagem recente nas redes sociais, Trump foi categórico: “A ideia de que os países do BRICS estão tentando abandonar o dólar enquanto assistimos passivamente chegou ao fim. Exigimos um compromisso de que eles não criarão uma nova moeda nem apoiarão outra para substituir o poderoso dólar. Caso contrário, enfrentarão tarifas de 100% e perderão o acesso à magnífica economia americana. Que procurem outro 'trouxa'!”

Durante seu primeiro mandato, Trump foi conhecido por adotar políticas protecionistas e por ameaçar aliados e adversários com tarifas elevadas. Agora, a possibilidade de que ele traga de volta seu ex-representante comercial, Robert Lighthizer, reforça o tom agressivo em relação ao BRICS, bloco que representa cerca de 35% da atividade econômica global em termos de paridade de poder de compra (PPC) e mais de 40% da população mundial.

Rodney Shakespeare, economista britânico e cofundador do Global Justice Movement, avaliou a situação como um movimento arriscado para os Estados Unidos. Segundo ele, qualquer tentativa de intimidar o BRICS pode levar a uma reação coordenada do bloco, alavancando seu peso econômico, populacional e de recursos. “Trump está baseando sua estratégia em uma hegemonia passada que está rapidamente desaparecendo”, afirmou Shakespeare, atualmente professor visitante na Universidade Trisakti, na Indonésia.

Impactos de uma Guerra Comercial EUA-BRICS

Os Estados Unidos enfrentam um déficit comercial de aproximadamente US$ 433,5 bilhões (cerca de R$ 2,14 trilões) com os países do BRICS. Nenhum dos membros do bloco apresenta déficits significativos em relação aos EUA, e alguns, como o Vietnã – um potencial parceiro –, registraram superávits acima de US$ 109 bilhões (R$ 538 bilhões) em 2023.

O BRICS é uma fonte essencial de produtos físicos para os EUA, incluindo bens de consumo, maquinaria, equipamentos elétricos, produtos químicos, minerais raros e medicamentos. O bloco é responsável por entre 40% e 70% da produção global desses itens. Em contrapartida, as principais exportações físicas dos EUA, como armas, petróleo e alimentos, possuem ampla concorrência no mercado global, especialmente entre os países do BRICS.

No campo dos serviços e da propriedade intelectual, que geraram cerca de US$ 1,1 trilhão (R$ 5,43 trilhões) em exportações em 2023, os EUA também enfrentariam desafios. O BRICS tem capacidade de substituir progressivamente serviços como consultoria, software e patentes por alternativas domésticas, reduzindo ainda mais a dependência do mercado americano.

Outro ponto crítico é a posição do dólar como moeda de reserva global. Embora ele represente cerca de 54% do comércio mundial, no intercâmbio entre países do BRICS, 65% das transações já são realizadas em moedas locais. A imposição de tarifas massivas poderia acelerar o processo de desdolarização.

Dr. Shakespeare alerta que o impacto imediato para os consumidores americanos seria o aumento expressivo no preço de produtos importados. Embora Trump espere que isso estimule a indústria nacional, as novas fábricas seriam em grande parte automatizadas, criando poucos empregos.

Em uma perspectiva mais ampla, Shakespeare conclui que uma guerra comercial dessa magnitude poderia ser um erro estratégico fatal para os EUA. “O poder econômico está se deslocando para fora dos Estados Unidos. Uma guerra comercial com o BRICS, seja coletiva ou individualmente, poderia se transformar em uma batalha que os EUA não estão preparados para vencer.”

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