As disputas culturais nos Estados Unidos remontam aos primórdios da nação, há quase quatro séculos. Em 1624, John Morton chegou ao que hoje é Quincy, Massachusetts, e publicou uma obra controversa, New English Canaan (1637), um verdadeiro precursor dos livros banidos no país. Descrito por críticos como uma crítica "herética" às estruturas de poder puritanas, o livro tornou-se símbolo de resistência às censuras literárias que marcariam a história dos EUA.
No início do século XIX, Thomas Jefferson também se opôs energicamente à censura literária. Em 1814, o ex-presidente criticou a proibição de um livro francês, La Création du Monde, que questionava dogmas religiosos. Em carta, Jefferson lamentou que, nos Estados Unidos, a mera venda de um livro pudesse se tornar "motivo de investigação criminal".
Atualmente, sob a liderança de Donald Trump, as guerras culturais assumiram nova intensidade. Contando com o respaldo da direita cristã, que domina o Senado, a Câmara e a Suprema Corte, os conservadores celebram vitórias como a reversão de Roe vs. Wade, o aumento de proibições literárias em escolas e bibliotecas — totalizando mais de 3.300 títulos entre 2022 e 2023 — e legislações contra direitos de pessoas trans.
Essa onda conservadora não é inédita. Em 1966, a capa da revista Time questionava: “Deus está morto?”, um marco na polarização cultural. Na época, James Dobson, fundador da organização evangélica Focus on the Family, já denunciava o que via como decadência moral, que ele sintetizou no livro Dare to Discipline (1970). Desde então, práticas antes consideradas tabus — como divórcio, coabitação antes do casamento, e relacionamentos homoafetivos — tornaram-se socialmente aceitas, refletindo mudanças profundas nos valores da sociedade americana.
O mercado também absorveu antigas transgressões. O setor de bebidas alcoólicas deve movimentar US$ 183,5 bilhões (cerca de R$ 920 bilhões) em 2024, enquanto jogos de azar, legais e ilegais, somam impressionantes US$ 574,4 bilhões (aproximadamente R$ 2,9 trilhões). Paralelamente, a comercialização de produtos relacionados à sexualidade transformou-se em um mercado estimado em US$ 75 bilhões (aproximadamente R$ 376 bilhões), abrangendo desde pornografia e brinquedos eróticos até drogas para melhoria do desempenho sexual.
Ainda mais surpreendente é o impacto dessas mudanças entre grupos religiosos conservadores. Eventos conhecidos como "festas da paixão" reúnem mulheres cristãs para explorar produtos de bem-estar sexual, com marcas especializadas promovendo uma abordagem "sagrada" à intimidade conjugal.
Entretanto, o conservadorismo religioso continua a impor barreiras. Vários estados aprovaram restrições à fertilização in vitro e cuidados de saúde para jovens transgêneros. Em 2023, a Suprema Corte do Alabama decidiu que embriões congelados deveriam ser considerados crianças, aumentando a pressão contra tratamentos de reprodução assistida.
As redes sociais também refletem essas contradições: enquanto promovem produtos como medicamentos para disfunção erétil, proíbem anúncios de vibradores e produtos relacionados à amamentação e menopausa.
À medida que a direita cristã consolida sua influência, novas batalhas se delineiam. A próxima fase das guerras culturais pode visar práticas antes toleradas, como o acesso a lojas de produtos sexuais, festas privadas ou mesmo plataformas de comércio eletrônico. O futuro dessas disputas promete continuar moldando a sociedade americana.
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