Igreja Anglicana reconhece falha histórica em caso de abusos de pastor britânico

Igreja Anglicana da África Austral (ACSA) emitiu um pedido formal de desculpas por não proteger fiéis dos riscos representados pelo pastor britânico John Smyth, acusado de abusar de mais de 100 meninos e jovens no Zimbábue e no Reino Unido entre as décadas de 1970 e 1980. A declaração do arcebispo Thabo Makgoba, divulgada nesta terça-feira, veio após a publicação de um relatório independente que expôs falhas sistêmicas na gestão de riscos dentro da instituição.

O documento, encomendado por Makgoba em 2023 e conduzido pelo Painel Farlam-Ramphele, concluiu que, embora não haja evidências de abusos cometidos por Smyth na África do Sul — onde ele viveu de 2001 até sua morte em 2018 —, as medidas de proteção da época eram “insuficientes para mitigar o alto risco” de repetição de seus crimes. “Exponhamos nossos fiéis a um perigo evitável. Peço perdão por essa falha”, afirmou o arcebispo.

Smyth, um ex-advogado e pastor leigo, atuou como “predador em série” segundo investigações. No Reino Unido e no Zimbábue, selecionava jovens sob seu cuidado espiritual para sessões de chicotadas sádicas com varas de jardim, deixando alguns com feridas tão graves que precisavam usar fraldas. O Relatório Makin, divulgado no Reino Unido em novembro de 2023, detalhou como a Igreja da Inglaterra ignorou denúncias por décadas, permitindo que Smyth fugisse para a África após as primeiras acusações nos anos 1980.

A investigação sul-africana revelou ainda que a ACSA só foi alertada sobre o histórico criminoso de Smyth em 2013, 12 anos após sua mudança para a Cidade do Cabo. “Nenhum aviso foi dado pela Igreja da Inglaterra antes disso, mesmo sabendo dos abusos desde os anos 1980”, destacou o painel.

A crise levou a demissão de Justin Welby, arcebispo de Canterbury, que assumiu responsabilidade pela inação institucional. Keith Makin, ex-funcionário público britânico que liderou o relatório no Reino Unido, descreveu os abusos como “prolíficos e repugnantes”, comparando a postura da igreja a “um muro de silêncio”.

O caso reacende debates sobre accountability religiosa e a cultura de encobrimento em instituições globais. Enquanto vítimas no Zimbábue ainda buscam justiça, a ACSA promete revisar seus protocolos de proteção — um gesto tardio, mas que ecoa um reconhecimento amargo: a fé não absolve a negligência.

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