Israel impede famílias de Jenin de enterrar entes queridos em casa

No campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia, famílias palestinas enfrentam uma dor além da perda: a impossibilidade de enterrar seus mortos em casa. Desde o início da mais recente operação militar israelense, em 21 de janeiro, corpos têm permanecido em morgues por até 13 dias, aguardando permissão para sepultamento.

Bassam Turkman, de 55 anos, viveu essa angústia ao perder o irmão Osama, de 60. A família, deslocada para a cidade de Burqin, a 4 km de Jenin, decidiu enterrar Osama longe de casa, em um cemitério local. “Crescemos acreditando que honrar os mortos significa enterrá-los rapidamente”, disse Bassam à Al Jazeera. “Deixá-lo na morgue indefinidamente não parecia certo.”

A operação israelense em Jenin, que já matou pelo menos 30 pessoas, forçou a fuga de quase todos os 20 mil habitantes do campo de refugiados, segundo a ONU. Além dos mortos em confrontos, famílias também não conseguem sepultar entes queridos que faleceram por causas naturais.

Enterros sob restrições

Após dias de negociações, autoridades israelenses permitiram enterros sob condições rígidas: sem procissõessem aglomerações e apenas dois familiares por corpo. Mesmo assim, os planos foram interrompidos no sábado, quando o Exército israelense revogou a permissão, citando “preocupações de segurança”.

No domingo, quatro corpos foram enterrados no distrito leste de Jenin, menos afetado pela operação. Os outros sete só receberam permissão na segunda-feira, mas os rituais de luto foram drasticamente reduzidos. “Sempre honramos nossos mártires juntos”, disse um enlutado, que preferiu não se identificar. “Agora, os enterramos em silêncio.”

Mártires sem despedidas

A família Abu al-Hayja também enfrentou dilemas ao perder Osama, de 25 anos, baleado por soldados israelenses enquanto estava no telhado de um prédio. Ele morreu sangrando, enquanto tiros impediam a chegada de uma ambulância.

Sem poder realizar um funeral tradicional, a família optou por enterrar Osama no Triângulo dos Mártires, uma vila próxima. “A decisão não foi fácil”, disse o irmão Tareq. “Mas queríamos que ele tivesse um enterro digno, mesmo longe de casa.”

Um povo privado de luto

Para os palestinos, os rituais fúnebres são mais que uma despedida: são atos de resistência e memória. “Somos um povo que precisa visitar seus mortos, sentar ao lado de seus túmulos, conversar com eles e lembrar”, disse Bassam. “Enterrar nossos entes queridos longe de casa é uma dor em si.”

Enquanto escavadeiras israelenses destruíam infraestruturas em Jenin, famílias como os Turkman e os al-Khateeb se despediam de seus mortos em Burqin, sob o som de tiros e drones. Para eles, a ocupação não respeita nem os vivos, nem os mortos.

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