Em meio às celebrações pelo retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a cena hip-hop dos anos 90 testemunhou um momento que muitos consideram uma traição irreparável. Rappers que outrora foram a voz das periferias agora fazem fila para beijar o anel do líder que representa tudo contra o que suas músicas combatiam.
Para muitos millennials negros, especialmente os que cresceram em bairros operários, o hip-hop era mais que música – era oxigênio. Ele narrava nossa existência com uma precisão que nenhum outro meio se preocupava em oferecer. Documentava cada detalhe da vida cotidiana e, ao mesmo tempo, mostrava caminhos para um futuro diferente do trabalho precário e das estatísticas de marginalização.
Mais do que uma trilha sonora, o hip-hop era um espaço de pensamento. Ele nos ensinava crítica social, nos fazia questionar as contradições do mundo e refletir sobre nossa própria condição. Nos anos 90, ouvíamos Aaliyah nos dizendo que "não precisávamos de um suéter da Coogi" para ter valor. Tupac nos fazia pensar com "Brenda's Got a Baby". O Wu-Tang Clan nos desafiava a decifrar suas rimas como se fossem hieróglifos.
Por isso, ver essas mesmas vozes se curvarem ao poder é uma punhalada no estômago. O hip-hop, que era nossa arma contra o sistema, agora toca nos bailes da posse de um presidente que representa a supremacia branca. O que antes era um espelho da nossa realidade virou um adorno para os filhos de milionários dançarem sem compreender seu significado. Ver nossos griots, que antes denunciavam a opressão, agora recolhendo dólares nos eventos mais baixos do espectro intelectual é devastador.
O argumento de que "um cachê é um cachê" é uma desculpa frágil. Fingir que não se sabe o que o movimento MAGA representa é um insulto à inteligência. O hip-hop sempre foi uma universidade maior do que qualquer instituição acadêmica, e essa história de "não misturar política com música" nunca colou.
Nos anos 90, a elite branca queria banir o hip-hop. Hoje, sua vitória está completa: não apenas domesticaram o gênero, mas também conseguiram que seus maiores expoentes servissem ao mesmo sistema que antes combatiam. Nelly justificou sua presença dizendo que "ele é o presidente", mas essa é exatamente a questão. Desde Dead Prez até Public Enemy, sempre houve uma trilha sonora para deixar claro que não é "cool" estar ao lado de presidentes e do poder opressor.
Não há desculpa aceitável para ver nossos artistas agora se prestando ao papel de bufões de um império que historicamente nos marginalizou. O hip-hop não pertencia apenas à juventude negra da América. Ele ecoava nas favelas da América do Sul, África, Europa, Ásia e Austrália. Era a voz dos colonizados contra as prisões ideológicas que nos impuseram.
Agora, ao ver figuras antes respeitadas servindo aos interesses de quem nos considera "terroristas" por exigir o direito de existir, o golpe é profundo. Pode-se ter quantas mansões forem possíveis, dirigir os carros mais caros, mas o que vale vender a alma por tão pouco?
Se ainda restava esperança, talvez seja mesmo hora de enterrar essa ilusão. Nas disse que "o hip-hop está morto". Talvez tenha sido uma profecia. Ou talvez esses "tíos do rap" apenas tenham perdido sua relevância nesta era de apartheid globalizado.
Enquanto a velha guarda se vende, uma nova geração emerge. O rap palestino anticolonial ainda resiste. Os Gen Z passaram metade de suas vidas encarando o fascismo de frente e vendo linchamentos virais de inocentes negros. Eles não estão dançando.
O hip-hop dos millennials pode ter se vendido, mas as favelas sempre terão sua vez. Elas criaram o hip-hop uma vez. Criarão outra vez.
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