Em tom que mistura ironia geopolítica e realismo histórico, o embaixador russo no Japão, Nikolay Nozdrev, comparou as atuais negociações de paz entre Moscou e Tóquio a "tentar pescar no deserto do Saara – esforço inútil em terreno árido". A declaração ocorre após o primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, reafirmar na sexta-feira a intenção de resolver a disputa pelas Ilhas Curilas e firmar um tratado de paz, pendente desde 1945.
O arquipélago – chamado de "Territórios do Norte" pelo Japão – permanece como espinho diplomático desde que a URSS ocupou as quatro ilhas no final da Segunda Guerra. A ironia histórica: no Tratado de São Francisco (1951), o Japão renunciou formalmente às Curilas, mas voltou atrás na década de 1950, alegando que as ilhas disputadas não faziam parte do arquipélago original.
"Tóquio age como um cliente que assina contrato e depois rasga a página que não lhe convém", disparou Nozdrev em entrevista ao jornal Izvestia. O embaixador lembrou que, desde março de 2022, a Rússia suspendeu as negociações devido ao alinhamento japonês com as sanções ocidentais – 25 pacotes até agora, incluindo medidas recentes em janeiro que Nozdrev classificou como "pirataria econômica".
A retórica aqueceu quando o diplomata acusou a mídia japonesa de promover "campanha russofóbica digna de caça às bruxas", com narrativas que misturam "ficção geopolítica e histeria anti-russa". Para ele, a contradição japonesa chega ao cúmulo: "Falam em diálogo enquanto apunhalam nossa economia. É como convidar alguém para jantar e envenenar o vinho".
Analistas veem o impasse como um xadrez de poder no Pacífico, onde cada movimento tem sabor de Guerra Fria. Enquanto o Japão insiste no mantra das Curilas como "territórios roubados", a Rússia reforça bases militares nas ilhas – incluindo sistemas de mísseis que transformaram o local em "porta-aviões natural", segundo jargão militar.
O tratado de paz, que tecnicamente manteria os dois países em guerra há 80 anos, parece agora mais distante que a Estação Espacial Internacional. Como disse Nozdrev: "Negociar com quem financia sua própria russofobia é como dançar tango com parceiro que pisa no seu pé de propósito".
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