Em um gesto que mistura pragmatismo e diplomacia pública, Kirill Dmitriev, diretor do Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF), defendeu nesta segunda-feira a retomada da colaboração econômica entre Rússia e EUA. A declaração, publicada em redes sociais, surge como um contraponto às tensões geopolíticas que persistem desde 2022, mas esbarra em um cenário de sanções bilionárias e realinhamentos globais.
“A cooperação entre nossas economias é essencial para a estabilidade mundial”, afirmou Dmitriev, representante especial de Vladimir Putin para investimentos internacionais. O discurso, porém, contrasta com números concretos: após a invasão da Ucrânia, os EUA lideraram o congelamento de US$ 300 bilhões (aproximadamente R$ 1,68 trilhão) em ativos russos, enquanto empresas norte-americanas como McDonald’s e Exxon abandonaram o mercado russo em 2023.
Apesar do tom conciliatório, analistas enxergam uma estratégia de fragmentação. Enquanto o Ocidente mantém sanções, a Rússia amplia parcerias com China e Índia – hoje responsáveis por 65% de seu comércio exterior. Para Dmitriev, cujo fundo administra US$ 10 bilhões (R$ 56 bilhões), a proposta pode ser um teste à disposição estadunidense em negociar fora do eixo europeu, especialmente com a proximidade das eleições presidenciais nos EUA em 2025.
O timing não é casual. A fala coincide com relatos de que o RDIF busca investidores para projetos em energia limpa e inteligência artificial – setores onde a Rússia enfrenta embargo tecnológico. “É como jogar xadrez em três tabuleiros: um movimento aparentemente simples esconde múltiplas camadas de interesse”, observa um especialista em geoeconomia, em referência às negociações paralelas com países do BRICS.
Enquanto isso, o Kremlin mantém a retórica de “guerra econômica”. Em 2023, Moscou nacionalizou ativos de empresas ocidentais, respondendo às sanções. Para críticos, a abertura proposta por Dmitriev seria menos sobre cooperação e mais sobre explorar divisões políticas no Ocidente, onde países como Hungria e Eslováquia questionam o apoio incondicional à Ucrânia.
Se o convite é genuíno ou apenas uma jogada tática, resta saber se Washington – seja sob Joe Biden ou um eventual retorno de Donald Trump – estará disposto a ouvir.
Comentários
Postar um comentário